2012: O Não-Apocalipse

19/03/2011

Por esta altura já todos fomos brindados com uma boa dose do fenómeno 2012. Isto claro já era conhecido antes do pseudo-fenómeno do maldito filme do Roland Emmerich, que só por ter o nome dele lá metido aposto que é uma bosta de filme como todos os outros que saíram as mãos dele. O que não impediu o filme de ser um grande sucesso de bilheteiras.

Li sobre isto pela primeira vez há alguns anos num livro, e isto era citado como uma brincadeira, mas que iríamos ouvir mais tarde, e o autor tinha razão. Achei na altura que como um colectivo não éramos estúpidos ao ponto de ligar bola ao assunto, mas isso foi noutros tempos em que tive mais inocência. Pelos vistos os maias tinham uma espécie de calendário com ciclos de 5125 5126 anos, contudo a civilização que o fez não durou tempo suficiente para experimentar esse tempo. Não que seja necessariamente original, visto os hindus terem ciclos bem maiores.

A questão parece que é saber qual era o conhecimento que os maias tinham sobre este assunto. Porque no século XXI não há praticamente nada que não tenhamos já descoberto, que os adorados maias soubessem. Com a excepção de alguns aspectos relativos à sua cultura, que obviamente não duraram até agora, ou dos quais não iremos encontrar vestígios, mas isso é outra história. Na verdade a treta de 2012 é baseada, no máximo, numa especulação pseudo-arqueológica muito rebuscada.

Outra questão interessante que tenho a dizer é sobre o próprio conceito de Apocalipse, que é um termo especial das culturas ocidentais, e que foram passadas para os escritos das religiões abraâmicas. Que se baseiam em contos de uma criação por uma divindade. E essa divindade irá decidir quando será o fim dos tempos. Acontece que a maioria dos que lê ou ouvem falar nas profecias do final dos tempos acham sempre que tal vai acontecer no seu tempo de vida, e muitos desses adoram a ideia.

O conceito de Apocalipse no termo das três grandes religiões monoteístas, não se pode aplicar a uma cultura diferente e com outra religião, que contem os seus próprios mitos. Além de que os maias nunca contactaram os monoteístas ocidentais ou do médio-oriente, logo a atribuição do termo é errado.

Pelo que os arqueólogos foram decifrando do que sobreviveu até agora das civilizações pré-colombianas, isto porque os conquistadores espanhóis fizeram um bom serviço a destruir toneladas de escritos por serem considerados satânicos. Os maias acreditavam que a cada 5126 anos o mundo era largamente alterado, como uma reformulação. Tal não implica que tem de haver um extermínio do mundo antigo para se ter um novo. Nem que o novo será algo pós-apocalíptico, seja isso no sentido da ficção científica ou da paz milenar. Ou que tal fenómeno seja “mau” ou brusco. Como o calendário é cíclico, ao fim de 5126 anos, volta a repetir-se.

Os defensores desta profecia fazem previsões sobre o que pode vir a acontecer. Entre as propostas cosmológicas do que pode acontecer temos um alinhamento planetário. Que não irá acontecer a não ser que se violem as leis da física, o que a não ser que provem que um cenário em que elas possam ser violadas é possível, por isso é por definição impossível. Existem outras ideias como um planeta vir a ter com a Terra e causar problemas gravíticos no Sistema Solar. Contudo esta ideia não provém de absolutamente nada, se não explicarem como sabem dele, como são evidentemente incapazes, a ideia não passa de algo que inventaram.

Ops! Botão errado...

Alguns exploram ainda mais a ideia do alinhamento planetário. Ao verificarem que um alinhamento entre todos os planetas é impossível sem a requisição de um cenário extraordinário.  Aqui convém lembrar que afirmações extraordinárias requerem provas extraordinárias, algo que eles não têm. Assim, decidiram dizer que o alinhamento será só entre o Sol, a Terra e o centro da galáxia. Isto tenta explorar a ideia do buraco negro como devorador de mundos. Apesar de termos um buraco negro no centro da galáxia, a distância a que ele se encontra torna-o inofensivo. Além de que temos um alinhamento destes todos os anos, e até agora não tivemos problemas.

E por esta altura está na hora de citar a Wikipédia porque tem aqui um parágrafo muito interessante:

The present-day Maya, as a whole, do not attach much significance to 2012. Although the calendar round is still used by some Maya tribes in the Guatemalan highlands, the Long Count was strictly employed by the classic Maya, and was only recently rediscovered by archaeologists. Mayan elder Apolinario Chile Pixtun and Mexican archaeologist Guillermo Bernal both note that “apocalypse” is a Western concept that has little or nothing to do with Mayan beliefs. Bernal believes that such ideas have been foisted on the Maya by Westerners because their own myths are “exhausted”.

Existem duas versões que derivam do calendário maia. Um em que o fim do mundo é em 21 de Dezembro e outro que é em 23 do mesmo mês. Agora vamos lá ao 21 de Dezembro por ser a data mais aceite, e é a data do Solstício de Inverno no hemisfério norte. Escuso de dizer que é uma data importante para muitas crenças antigas. E como podemos ver estamos no mesmo patamar que há milénios atrás, em que queremos continuar a celebrar o Solstício, como faziam os Homens que viviam nas cavernas que tinham medo que o céu lhes caísse em cima.

Nós fomos avisados.

Não devíamos já ter aprendido a lição? Praticamente todas as predições que tentamos fazer desde o início da nossa espécie sem que sejam baseadas no método científico, falharam completamente. Isto é a não ser predições anedóticas, como predições de tal forma vagas que a única maneira a que sejam usadas, são após o acontecimento e depois de uma boa dose de interpretação. Pelos vistos os Nostradamus nunca conseguiram escrever claramente as visões que tinham.

O mundo ia acabar no primeiro milénio depois de Cristo. E um milénio depois a mesma coisa. A diferença é que agora temos uma data toda cagona 21/12/2012 para o novo Apocalipse, e na verdade, como é costume não vai acontecer nada. Tanto é que pretendo escrever alguma coisa sobre o assunto, nem que seja para lembrar lá para 2013 ou no dia 22 do 12 de 2012, porque tudo estará como está hoje. Se querem evitar o único Apocalipse que nos pode realmente acontecer está na hora de preservar as condições do planeta, caso contrário estamos arrumados. Se não o fizermos o “profeta” Al Gore vai fazer o favor de nos lembrar que fomos avisados.

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Perry Marshall, o profeta do desenho inteligente

27/02/2011

O título não é propriamente justo, Perry Marshall não foi o gajo que criou o movimento daquilo a que se chama o Desenho Inteligente (Intelligent Design), ou novo criacionismo. Tanto é que ele é um peixe relativamente pequeno, quando comparação ao William Dembski e companhia do Discovery Institute. Pareceu-me mais interessante explorar este gajo que se apresenta como um homem com uma teoria irrefutável, sempre é mais aliciante que o velho Kent Hovind.

O ADN é Desenhado?

Marshall tem um site o Cosmic Fingerprints que usa para a divulgação do seu trabalho pseudo-ciêntifico. Creio que a melhor forma de perceber o que defende é vendo este vídeo, e talvez devam instalar um daqueles extras maravilhosos do Firefox que permite sacar vídeos, saquem-no e vejam-no localmente, porque é um vídeo longo (melhor para se fazerem pausas). No que toca a apresentação (o vídeo) só tenho a queixar-me que o gajo diz 500 vezes que escreveu o livro Industrial Ethernet, 50 vezes bastavam para a gente apanhar a ideia, isto é claramente uma tentativa de se suportar a si próprio apresentando-se como uma autoridade. O que é inútil visto que o tal livro não tem absolutamente nada a ver com Biologia. A base de toda a tanga que ele defende parte deste argumento:

O ADN é um código.

Todos os códigos que conhecemos são “desenhados”.

Logo, o ADN é desenhado.

Começamos mal. Porque a primeira premissa é falsa, o ADN não é um código, é uma molécula. ADN significa ácido desoxirribonucleico. Então de onde vem o código genético? O código genético provém de quando passamos a papel os nucleótidos da molécula para “papel”. O ADN tem quatro bases azotadas: Adenina, Timina, Guanina e Citosina. Quando escritos em formato que os humanos possam ler, como num computador, usam-se as iniciais do nome das bases azotadas para representar a sequência que existe delas numa cadeia. As cadeias do ADN são anti paralelas, e criam pontes de hidrogénio entre a Adenina e a Timina; E entre a Citosina e a Guanina. Ou seja se numa das cadeias temos a Adenina, na outra teremos a Timina, e se tivermos Guanina teremos na outra a Citosina, e vice-versa. Essencialmente, se tivermos uma das cadeias, podemos saber a outra. Para este post, vou criar uma cadeia fictícia para explicar:

ACGTAGCTAGTACGATCGATGGACTAGCATCGACGGACTAGGATCCGA

TGCAGCGATCATGCTAGCTACCTGATCGTAGCTGCCTGATCCTAGGCT

Como podem ver a colocação de letras num papel para simbolizar as sequências de nucleótidos é que criam o código genético, o que não é propriamente informação no sentido de o ser como num livro nem como o código Morse. O que representa afinal a minha cadeia? Uma sequência de moléculas. Cada nucleótido de cada cadeia é constituído por uma das quatro base azotada, uma pentose (no caso do ADN a Desoxirribose) e um grupo fosfato. Para terem uma melhor ideia, fica aqui uma versão muito simplificada da estrutura:

Porque é que só damos o nome da base? Bem, porque a pentose é sempre a mesma e o mesmo conta para o fosfato, portanto dá-se o nome da base para simplificar a apresentação da molécula. Contudo dizer que o ADN é um código é tão errado como pegar numa molécula qualquer como um hidrocarboneto, por exemplo o Hexano com uma estrutura linear, que tem fórmula C6H14, e dizer que é um código porque se colocarmos numa folha 14 “H” e dizer que temos um código. Eu sei que não bem a mesma coisa, porque no ADN estamos a falar de uma macromolécula que é composta de moléculas menores, visto que tanto a base azotada, a pentose e o fosfato são moléculas. Enquanto que no Hexano estou a falar de átomos.

A segunda premissa diz que Todos os códigos que conhecemos são “desenhados”. Primeiro isto pouco importa visto que já demonstrei porque a primeira premissa é falsa, contudo sabemos que todos os códigos são desenhados, porque todos os códigos que conhecemos foram inventados por seres humanos. O que não implica que não possam haver códigos que não sejam desenhados por alguém. Contudo códigos não são uma coisa palpável, ou seja, só interpretados por alguém é que eles têm algum valor. Ou seja para um cão uma tradução de um livro em código Morse não passa de uma série de batidas. Por fim: Logo, o ADN é desenhado. Não, o argumento falhou logo na primeira premissa, logo não podemos concluir isto.

O Desenhador Inteligente que afinal não existe

Mas o senhor Marshall faz o favor de levar isto mais longe: O ADN é também um sistema digital de comunicação. Isto é o que se chama ser confiante. Primeiro o ADN não é digital, porque é uma molécula, não vejo como possa ser mais “analógico”. Sistema de comunicação? Bem, se ele julga isso porque não nos transmite uma mensagem? O ADN é composto de genes, e a única coisa que os genes fazem é tentarem propagar-se, ou seja, genes mais aptos a uma data situação, tendem a propagar-se melhor. Não vejo o que isto tem a ver com um sistema de comunicação.

Todas as fórmulas da teoria de comunicação que criaram a nossa era digital aplicam-se ao ADN. Não, de maneira nenhuma. O ADN não se transmite da mesma forma que o ondas rádio ou dados dentro de um cabo de fibra óptica. Tanto é que isto é falso, porque Perry Marshall não tenta demonstrá-lo em nenhuma das suas apresentações, e é o único, talvez com excepção dos nossos amigos do Discovery Institute que afirmam tal coisa.

Para ele o ADN só pode ter dito cinco possíveis origens:

  1. Os Humanos desenharam o ADN.
  2. Extra-terrestres desenharam o ADN.
  3. O ADN ocorreu por acaso.
  4. Existência de uma lei da física ainda por descobrir.
  5. ADN foi desenhado por Deus.

Os Humanos desenharam o ADN. Se aceitarmos algumas histórias da ficção cientifica, e se de facto for possível violar a lei de ouro de Einstein e viajar no tempo para o passado. O que parece só ser possível se for possível deslocar-mo-nos a velocidades superiores à da luz, ou passar uma região com gravidade suficientemente grande (há quem diga que se possa usar buracos negros para isto). Evidentemente isto parece ser muito improvável. Contudo, se alguns problemas poderem ser solucionados ou contornados e de facto ser possível atingir velocidades superiores à da luz, então esta hipótese não é inviável. Agora é assim, temos os problemas dos paradoxos temporais. Contudo se existir só um paradoxo, em que os humanos voltam atrás no tempo para fazer o ADN, sem haver um ciclo inicial em que ele não é feito por processos puramente naturais. Contudo isto é uma explicação desnecessária.

Extra-terrestres desenharam o ADN. Esta parece que é para os fãs do X-Files, mas continua a ser realizável. Marshall diz que está bem, fomos desenhados por ETs, mas de onde eles vieram? E eu pergunto-lhe se o ADN foi desenhado, de onde veio o Desenhador? Visto que é exactamente a mesma pergunta. Vamos assumir que existe uma raça de Aliens tecnologicamente avançados que conseguem transportar-se por entre universos num possível Multiverso e que sempre existiram, então nunca houve uma génese da vida. Contudo isto é exactamente a mesma coisa que Marshall e os defensores do Desenho Inteligente defendem, a diferença é que eles mudam a palavra Extra-terrestre para Desenhador Inteligente. Obviamente, isto não pode ser científico porque os atributos dos Aliens que saltam de Universo em Universo são praticamente supernaturais, e a ciência não comenta no supernatural.

O ADN ocorreu por acaso. Não, porque ele implica que ocorreu por processos puramente aleatórios, o que não é verdade. O ADN se realmente se formou na Terra ocorreu porque estando o nosso planeta no Universo, tudo o que está nela obedece às leis da Física. Isto significa que não é como um tornado passar por entre um monte de sucata e fabricar um Boeing 747. Tanto é que  este argumento é conhecido pela falácia de Hoyle. Em que Fred Hoyle calculou a probabilidade de se formar aleatoriamente um aminoácido. O resultado altamente improvável a que ele chegou, deve-se ao facto de não ter levado em conta coisas como a abundância de elementos e moléculas, as condições do ambiente, a probabilidade de formação de compostos orgânicos e o electromagnetismo que tem imensa importância quando estamos a falar de formação de compostos.

Existência de uma lei da física ainda por descobrir. Lá porque ainda não foi descoberto como é que o ADN se formou, apesar de haverem evidências que o ARN seja anterior ao ADN, não implica que haja uma lei da física por descobrir. Tanto é que a forma em hélice e todas as reacções químicas a que o ADN são explicadas pelas leis da física que temos agora. Logo não vejo razão para evocar tal hipótese. Também ninguém disse que as primeiras formas de vida, formas de vida é um elogio visto que existe grande debate sobre o que lhes chamar, não tinham ADN e provavelmente não passavam de moléculas auto-replicantes que só muito mais tarde aumentaram a sua complexidade.

ADN foi desenhado por Deus. Claro, a resposta favorita de Perry Marshall. De todas elas é a única que não é sequer vagamente demonstrável e automaticamente não é científica. Não compreendo como é que ele pode dar um salto destes. O que é claramente uma espécie de falsa dicotomia, se não podemos explicar as coisas com recurso ao conhecimento actual temos que evocar Deus para a explicar. Isto é outro claro exemplo da explicação que explica tudo, sem explicar nada. Por uma razão simples: Usar um deus para explicar seja o que for impossibilita a criação de um modelo para formação de previsões, o que é essencial para uma teoria científica.

Além de que ele deixou a hipótese que é a mais provável, o ADN formou-se por processos puramente naturais. Isto tanto pode ter acontecido na Terra primitiva por um processo que ainda não é completamente compreendido, mas tal é uma questão de investigação, até que se chegue a uma conclusão. Se for demonstrado que a origem da vida não começou na Terra porque as condições não eram satisfatórias para tal, então é possível que tenha havido um caso de exogénese. Neste caso a vida teria sido trazida para a Terra por algum agente puramente natural, como um cometa ou asteróide, e tanto é que esta hipótese é chamada de panspermia.

O Cristão e o Ateu vão ao Zoo…

Novamente Marshall comete um erro enorme, tentar misturar ciência e o seu sabor favorito de gelado religião. Sempre que isto se tenta não dá boa coisa. Porque novamente, a ciência não faz comentários sobre o sobrenatural. Porque o sobrenatural está fora da área de estudos das áreas da ciência, além de que evocar uma explicação supernatural não explica nada, porque não permite fazer criar modelos para se fazerem predições. Crenças sobre deuses do deserto que vivem atrás de uma nuvem são uma matéria pessoal, e logo não são chamados para investigação científica.

Marshal coloca a questão: O Antílope evoluiu para a Girafa? A resposta é um grande não. Isto coloca logo Marshall na posição em que não sabe do que está a falar ou está evocar ignorância que não tem. A evolução não funciona desta forma. Animais actuais não evolvem para outros animais actuais. Isto é tão estúpido como dizer que os cientistas estão à procura de um crocopato, como diz o criacionista Kirk Cameron. Logo começa por aqui a mostrar-se que a qualidade de argumentos entre os criacionistas e os membros do desenho inteligente está ao mesmo nível. Sabendo que o Antílope e a Girafa são ambos mamíferos eu sei à partida que tiveram um ancestral comum e não evoluiu um do outro. É a mesma questão do Homem evoluir do Chimpanzé ou de um Macaco, ler e ver mais por aqui.

Ele faz outra crítica que diz que as mutações genéticas não podem acontecer porque as ideias mágicas da teoria da comunicação implicam que as mutações sejam equivalentes a adição de ruído. Ele até mostra como testar isto no site Random Mutation. Para experimentar vou usar a cadeia superior do meu ADN imaginário, e ver o que dá:

ACxTAGCTAGTA.GATwGATGGAC7vGCATCGACGnAdCAGGARCCGA

Agora vamos lá compreender porque isto é um saco de merda. Primeiro Marshall continua a assumir que o ADN é um código, mas já demonstrei que não é. Segundo, assume que o ADN é um sistema de informação digital, o que não é verdade. Por fim, Marshal não sabe ou não quer saber que em condições normais as bases azotadas são as únicas coisas que podem ser colocadas naquele local. O que isto implica? Simplesmente, que mesmo assumindo que as mutações ocorrem de forma puramente aleatória, as bases azotadas só serão substituídas por bases azotadas, aplicando 10 mutações aleatórias:

ACCTATCTAGTATTATCGATGCACTGGCAACGGCGGTCTACGATCCGA

Ora bem, não é muito diferente do que tínhamos ao início, ou é? No máximo é isto que pode acontecer. Contudo é de notar que as mutações não são puramente aleatórias (porque estão sujeitas às leis da física) e conhecemos as razões pelas quais ocorrem. Note-se que a maioria das mutações não têm qualquer efeito no organismo porque são neutras. Ocorre por entre casos que irão ocorrer mutações que irão favorecer um dado indivíduo num dado ambiente, ou seja, ele vai ter alguma vantagem em comparação aos seus pares. O que acontece é que houve uma alteração num dado gene, e por causa disso esse gene tende a propagar-se melhor.

A última critica em relação as mutações genéticas, parte de uma afirmação que não encontrei fora do site de Marshall. Segundo ele Theodosius Dobzhansky fez experiências no início do século XX. O que é de estranhar visto que Dobzhansky nasceu em 1900. Continuando pelas linhas do nosso amigo Perry: Dobzhansky pegou em moscas da fruta e expôs as ditas a doses de radiação (raios x e raios gama) relativamente elevadas. Que são conhecidos agentes causadores de mutações. Contudo a realidade das experiências não parece estar de acordo com as afirmações de Marshall, visto que ele afirma que a única coisa que Dobzhansky conseguiu for criar versões super atrofiadas das moscas.

…depois de trocarem os cereais matinais por pastilhas de LSD

Uma das funções do ADN é a síntese de proteínas, as proteínas são conjuntos de moléculas mais simples (ainda assim relativamente complexas) que são os aminoácidos. Existem cerca de 20 aminoácidos sintetizados pelos processos que envolvem o ADN. Isto processa-se mais ou menos da seguinte forma:

  • Enzimas separam as cadeias de ADN e replicam uma das cadeias de ADN numa molécula de ARN pré-mensageiro. Por exemplo a nossa já conhecida primeira linha do nosso hipotético ADN seria transformada nisto:

UGCAUCGAUCAUGCUAGCUACCUGAUCGUAGCUGCCUGAUCCUAUAGGC

Essencialmente isto é em tudo igual à cadeia inferior acima exposta, só que os Ts foram substituídos por Us, porque no ARN não existe Timina, e para a “substituir” existe o Uracilo.

  • O ARN pré-mensageiro é processado. Por outras palavras são separados os Intrões dos Exões, só os Exões é que saem para a síntese (ninguém sabe muito bem porque isto acontece). Exões a negrito, são os saem do núcleo da célula. Note-se que estou a assumir que os exões são escolhidos a cada 6 bases azotadas:

UGCAUC GAUCAU GCUAGC UACCUG AUCGUA GCUGCC UGAUCG CUAUAG GGC

GAU CAU UAC CUG GCU GCC CUA UAG

  • Assim temos os codões que irão ser sintetizados em aminoácidos, os codões são tripletos, o que significa que existem 64 combinações para 20 aminoácidos. E é exactamente por isso que a maioria das mutações são neutras, porque a alteração de uma base azotada pode não significar a alteração do aminoácido a ser sintetizado.
  • O que iríamos obter neste caso seria:

Ácido aspártico – Histidina – Tirosina – Leucina – Alanina – Alanina – Leucina – Codão Terminal

  • Em muitos casos se alterarmos só a última “letra” do codão, o aminoácido sintetizado é o mesmo, como podem verificar na Leucina e na Alanina.

Como podem ver o senhor Marshall não nada a seu favor, e tudo o que apontou é demonstravelmente errado. Note-se que ele faz muitos cursos gratuítos cuja a única coisa a fazer é dar-se o nome e o e-mail. Contudo acho isto suspeito, por saber que é prática comum dos evangelizadores de sacarem os endereços e depois mandarem spam às manadas. Não estou a dizer que ele o faça, visto que não tenho provas disso. E para que é que iriam perder tempo quando ele não tem um caso a apresentar. Se ainda assim quiserem arriscar, recomendo-vos usarem uma alias como aquelas que o Hotmail da Microsoft* actualmente oferece.

*Sim, também sou capaz de dar uns elogios aos nossos amigos de Redmond.

PS: Erros ortográficos e afins, serão corrigidos nos próximos dias se os encontrar… Quaisquer erros científicos/ortográficos que encontrarem agradeço que mos apontem.

Bondage 101 episode 1
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A evolução não é uma teoria

20/02/2011

Não sei se já repararam mas o YouTube está repleto de “especialistas” em criacionismo que afirmam conspirações ou simplesmente que a ciência não sabe aquilo que afirma. Obviamente, a maioria deles são americanos, curiosamente o mais famoso é canadiano. Já se sabe que eles têm todos a mania que toda a gente, mesmo que não percebam nada do assunto, têm o direito de dizer o que bem lhe apetecer. Tal resulta em duas coisas, apresentação de argumentos desonestos, o que é ainda mais repreensível visto o carácter religioso dos proponentes, ou simples ignorância.

A evolução não é uma teoria. A evolução é um processo que ocorre e não existem dúvidas sobre o assunto, já se sabia que ela ocorria antes do Darwin ter escrito o seu famoso livro. A única coisa de teórica é o modelo que usamos para a descrever, e é aqui que o nosso amigo naturalista de barbas entra. Por outras palavras a evolução existe, é na forma de explicar como ela ocorre que nós podemos estar errados. Contudo, vendo que a teoria funciona excepcionalmente bem, duvido que ela alguma vez possa ser descartada.

Cientistas têm estado há anos a tentar ofuscar a realidade que os porcos descendem de seres humanos.

Acho incrível ver pessoas que não compreendem como funciona o processo, diga-se de passagem que é relativamente simples, defenderem que a evolução não existe ou que está errada. Também me preocupou num episódio dos Contemporâneos em que me foi dado o “prazer” de  apreciar dois tugas que renegaram a evolução: Tretas, então não foi Adão e Eva?, O Homem é Homem e o Macaco é Macaco. As vezes decepciono-me com as mentalidades, espero que sejam parte dos oito (não me obriguem a colocar aqui a palavra milhões) portugueses  que levam o criacionismo a sério.

Dr. Dino e os 40 espantalhos

Especialistas como o mítico “Dr.” Kent Hovind (também conhecido por Dr. Dino) que agora está preso por fuga fiscal. Note-se que lá porque ele tem um doutoramento falso, faz palestras falaciosas sobre um assunto que não quer compreender e andou a evitar pagar impostos isso não implica que ele não possa ter razão sobre o que diz. Na realidade não tem, mas enfim. Este senhor doutor e companhia fazem o favor de apresentar uma versão falsa da que tentam refutar. Tentando-a fazer parecer ridícula. Entre as artimanhas tentam incluir o Big Bang na “Teoria da Evolução”.

O que é começar mal, porque é mentira. Visto estarem inutilmente a tentar misturar teorias de duas áreas distintas da ciência: Astronomia e Biologia.  O Big Bang é simplesmente o modelo cosmológico mais apoiado, quer pela comunidade científica quer pelas evidências. Contudo tanto faz que se use um Universo do Big Bang ou outro qualquer (Estado Estacionário, Estado Quase Estacionário, Universo Estático, …) a evolução irá acontecer,a partir do momento em que se tenha uma forma de vida que se possa replicar.

Não paguei os impostos do carro, da casa, dos lucros, dos bens...

Cosmólogos e astrofísicos não afirmam que o Big Bang apareceu do nada. O assunto é complicado, visto que perguntar o que aconteceu antes do Big Bang é uma pergunta que é capaz de ser impossível de responder. Porque antes implica a existência de tempo, mas como o tempo e o espaço foram criados a quando do Bang, torna-se complicado responder pois o tempo como o conhecemos não existia.

Tentam também misturar a origem da vida. Contudo a abiogénese não é o mesmo que a geração espontânea. A geração espontânea foi refutada experimentalmente por Francesco Redi (1626 – 1697). Louis Pasteur (1822 – 1895) fez experiências similares, que levou a origem da teoria dos germes e a teoria celular. A geração espontânea é uma ideia datada que afirma que formas de vida simplesmente aparecem do nada. Pasteur conseguiu provar que a fermentação é causada por micro-organismos que infectam os alimentos e se reproduzem.

Chuck Missler outro criacionista, tentou refutar a evolução com o argumento da manteiga de amendoim. Segundo ele como existe nos frascos de manteiga de amendoim matéria, e como eles são expostos à luz, ou seja energia, deveria de tempos a tempos aparecer vida nos frascos. Portanto (segundo ele, note-se) a indústria alimentar é construída no princípio de que a evolução é falsa.

Isto é o típico argumento do espantalho. Usa-se uma posição que o oponente não afirma, uma posição falaciosa e mais fácil de atacar e usa-se o espantalho para refutar o argumento. Novamente os cientistas há muito que largaram ideias como a geração espontânea. Todo o argumento do senhor Missler é ridículo e é praticamente tão famoso entre as falhas criacionistas como o argumento da banana do Ray Comfort.

Dr. Ben Stein & Mr. Desenho (pouco) Inteligente

No  documentário Expelled: No Intelligence Allowed apresentado por uma besta chamada Ben Stein. Que além de super falacioso, o nosso querido apresentador sendo judeu, achou boa ideia tentar insinuar que o Nazismo foi provocado pela teoria da evolução. Tem uma cena nojenta em que ele se mete junto a uma estátua do Darwin e fica a olhar para ela com uma cara repreensiva. Segundo Ben Stein, em entrevistas a promover o documentário afirmou que: A ciência leva-te a matar pessoas.

Não deixa de ser curioso saber que Hitler além de ser um cristão católico, era também um criacionista que negava a evolução, e que pensava que estava a fazer uma tarefa divina. Hitler acreditava noutras parvoeiras, por exemplo que a Terra era oca, e em coisas do obscuro. O pseudo-documentário também tenta implicar que a evolução é a origem do comunismo, fascismo e ateísmo. Não sendo verdade para nenhum dos casos.

Só fui pescar o Expelled para referir que no *documentário* na parte reservada à entrevista a Michael Ruse, onde ele afirma que as formas de vida iniciais podem ter tido uma origem associada à síntese de cristais. Os editores do documentário decidiram ridicularizar a ideia tentando associar os cristais que Ruse fala com bolas de cristais mostrando um clip de um filme a preto e branco com um adivinho. Obviamente quem sabe que os cristais são estruturas super organizadas, que ao crescerem parecem reproduzir-se, a associação a formas primitivas de vida com cristais não é uma ideia que possa ser ridicularizada. Stein e os amigos produtores do filme, contam com a ignorância dos espectadores para passarem esta mensagem.

Breve resumo da “pré-história” da Evolução Moderna

O criacionismo parte da ignorância. A ideia base foi criada há alguns milhares de anos, certamente, desde o momento em que o Homem se perguntou de onde raio é que nós saímos? A explicação óbvia para o qualquer um que se perguntou isto sem qualquer conhecimento científico era que o Sol ou outro deus qualquer, o tivesse criado por processos mágicos e fantásticos da forma que já era. Apesar disto responder a qualquer pergunta, na realidade não responde a nada, porque não serve para fazer predições.

Ninguém se lembrou de algo semelhante à evolução durante muitos anos porque ninguém conhecia o mundo. Não haviam registos de muitos animais. A dissecação chegou a ser considerada um crime, o que não ajudou em nada o progresso científico e não se conheciam espécies extintas preservadas como fósseis, além disso diferentes culturas conheciam diferentes seres. Os africanos conheciam leões e zebras. Enquanto que os europeus conheciam pássaros e javalis. Os indianos tinham tigres e elefantes. E relativamente a estes conhecimentos básicos, em que se restringiam a chamar ao animal aquilo que quisessem e, por outro lado, limitavam-se a reconhecê-lo, os mitos surgiam sempre associados aos seres que eles conheciam.

Por isso é que a arca de Noé é miseravelmente pequena para conseguir ter um casal de todos os seres , mesmo contando só aves não voadoras, repteis e mamíferos, em resumo só os animais que respiram pelas narinas. Foi feita para caberem os animais que eram conhecidos pelos hebreus. Claro, os seres microscópicos ficaram de fora, tal como os insectos. Ora se a arca tinha 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura, segundo a Tora que tenho aqui. Sendo um côvado igual a 52,4 centímetros. Façam as contas e verão que temos uma arca com cerca de 160 metros de comprimento, 26 metros de largura e 16 metros de altura. Pode parecer enorme, mas não é.

Primeiro a medida de um côvado parece ter aumentado ao longo do tempo, a medida que o homem se alimenta melhor ocorre um aumento da sua estatura. Infelizmente não faço a menor ideia de como calcular o volume da arca, vou assumir erradamente como se ela era um  paralelepípedo, o que a fará maior do que o tamanho real. E assim posso concluir que ela teria menos de 66 mil metros cúbicos. Pode parecer muito, mas depois de colocarmos um par de elefantes, hipopótamos e mais uns poucos o espaço desaparecia num instante. Não cabem lá tantos animais quanto se reza. Claro que gostava de ver um gajo com a tecnologia do Noé conseguir fazer uma arca tão grande, especialmente sem conhecimentos de mecânica de fluídos.

História da Evolução Moderna

A questão sobre a origem do Homem não foi levantada até ao renascimento, uma fase cultural em que o antropocentrismo começa a ter um papel importante. Apesar de haverem algumas ideias que remontam à grécia antiga. Neste período o conhecimento era necessário para o Homem ser perfeito, tivemos grandes cabeças desse tempo, sendo Leonardo da Vinci o mais conhecido. Os descobrimentos, e não propriamente os portugueses e espanhóis, levaram ao conhecimento de novos seres. Um pequeno passo em direcção ao progresso.

Só no século XVIII é que se começaram a classificar os seres vivos, essa classificação teve uma maior complexidade com o passar dos anos, mais seres eram descobertos e mais características eram apresentadas para cada um, que fossem elas anatómicas ou comportamentais.

A classificação que estamos habituados em dois nomes, como por exemplo Canis Lupus (o lobo cinzento) foi inventado por Carlos Lineu (1707 – 1778). Lineu era um criacionista e achava que o Deus cristão colocou os seres vivos de forma a serem facilmente classificados.

Conde de Buffon

George-Louis Leclerc (1707-1788), mais conhecido por Conde de Buffon, após ter passado muitos anos a analisar anatomicamante fósseis de seres extintos e esqueletos, afirmou que a espécies provavelmente se transformavam ao longo do tempo. Mas nunca chegou a um principio muito importante da evolução: os seres têm uma origem comum.

Lamarck

O primeiro evolucionista realmente convicto foi Lamarck (1744-1829).  A teoria evolutiva de Lamarck, defendia que os seres se adaptavam ao meio, esforçando-se para isso. Esta teoria está baseada em duas leis:

  • Primeira Lei: Em cada animal que não passou o limite do seu desenvolvimento, um uso mais frequente e contínuo de um certo órgão torna-lo-à (o órgão) mais forte, desenvolvendo-o e aumentando o seu tamanho, crescendo proporcionalmente ao tempo que é usado. Por outro lado o desuso permanente de um dado órgão imperceptivelmente torná-lo-a mais fraco deteorizando o órgão, progressivamente diminuindo a sua funcionalidade até que finalmente desapareça no processo evolutivo.
  • Segunda Lei: Todas as aquisições ou perdas naturais nos indivíduos, devido a influência do meio em que a sua raça se encontra há muito tempo, leva ao uso ou desuso permanente de um certo orgão. Estas características são preservadas pela reprodução, passando aos novos indivíduos as modificações ganhas pelos seus progenitores/progenitor.

Contudo sabe-se que os seres não se adaptam ao meio, o meio é que selecciona os mais aptos, a isto chama-se selecção natural, um dos pilares da teoria de Charles Darwin (1809-1882). Com 22 anos, já Lamarck havia morrido, Darwin parte numa expedição a bordo do Beagle. Segundo a lenda, quando chegou as ilhas Galápagos no Pacífico, encontrou várias espécies de animais, entre os mais famosos temos as tartarugas e os tentilhões.

Mais tarde quando analisava os dados que obteve durante a sua viagem questionou-se se seria possível que os animais das diversas ilhes tivessem uma origem comum. Darwin que fora criador de pombos, sabia que a selecção artificial permitia-lhe escolher os pombos com características vantajosas. Postulou que no caso das tartarugas podia-se ver claramente que ambas eram facilmente identificáveis como tartarugas, mas uma estava mais “apta” a sua ilha e a outra igualmente mais “apta” a respectiva ilha. O mesmo se aplicava as diversas raças de tentilhões que encontrou pelas diversas ilhas.

Darwin

A teoria que Darwin apresentou Na a Origem das Espécies por meio de Selecção Natural, ou a Preservação de Raças Favoráveis na Luta pela Vida, este era o título original. Darwin sabia pelos trabalhos de Thomas Malthus (1766 – 1834) que o crescimento das populações propaga-se exponencialmente. Contudo por outro lado, os alimentos produzem-se aritmeticamente. Por exemplo se a população se propagar por uma função exponencial como x^2 (1,4,9,16,25,…), os alimentos poderão crescer por uma função afim como 2x (2,4,6,8,10,12,…). Devido a escassez de alimento os seres terão de competir para o obterem. O mecanismo de Darwin processa-se do seguinte modo:

  1. Existe uma população inicial com variedade de características.
  2. As espécies produzem mais descendentes do que aqueles que podem sobreviver, devido a escassez do alimento ao fim de umas gerações.
  3. Existe entre os indivíduos luta pela sobrevivência e reprodução.
  4. Devido a variedade inicial de características alguns dos seres têm maior possibilidade de sobreviver e reproduzir, passando as suas características a geração seguinte.

Alfred Wallace

Contudo estas conclusões não foram exclusivas de Darwin, Alfred Wallace (1823 – 1913) que trabalhava na Malásia, chegou basicamente as mesmas conclusões de Darwin. Ambos não foram capazes de explicar a existência da variabilidade inicial de uma espécie nem como eram transferidas as características para nova geração. O primeiro passo para a explicação deste fenómeno foi feito pelo padre Gregor Mendel (1822 – 1884), que é considerado o pai da genética. As conclusões que apresentou só foram foram realmente compreendidas na década de 40 do século XX, com a descoberta da molécula de ADN e progressivo estudo. Foram encontrados entre os papeis de Darwin uma carta que lhe foi enviada por Mendel, contudo o conteúdo não lhe foi útil por estar escrita em alemão.

http://en.wikipedia.org/wiki/Gregor_Mendel

Hoje sabemos que as mutações genéticas causadoras das variabilidade dos indivíduos é resultante de erros durante a replicação do ADN durante a meiose (fenómeno que serve para formar os gâmetas). Podendo ocorrer simplesmente por um erro na replicação da molécula inicial de ADN ou durante o crossing-over, em seres com reprodução sexuada ocorre com mistura de cromossomas dos progenitores, transmitindo características dos progenitores para os seus descendentes. As mutações genéticas podem ser benéficas ou não. Por exemplo numa espécie de ratos brancos em que existe um rato cinzento, e esta espécie é predada durante a noite, o rato cinzento tem maior probabilidade de sobreviver em relação aos outros.

Os criacionistas apresentam como resposta a toda a “teoria evolucionista” que faltam seres na árvore da evolução, os tão afamados missing links. Esses missing links representam fósseis que não foram encontrados. Ninguém até hoje afirmou que vamos encontrar fósseis de todas as espécies de seres que alguma vez existiram. A fossilização é um processo relativamente raro e só ocorrem em condições propícias. Por exemplo, basta haver oxigénio a mais na bacia de sedimentação para que não se forme um fóssil, porque as bactérias aeróbias irão sobreviver e digerir o indivíduo.

A controvérsia que não existe entre os especialistas

A micro-evolução é uma parte importante para o debate segundo os criacionistas, eles admitem que existe a micro-evolução mas a macro-evolução não ocorre. Bem tenho a dizer que a não existe diferença entre a micro-evolução, macro-evolução e evolução. A micro-evolução é evolução, é a evolução que ocorre numa espécie num período de tempo reduzido, o tempo de vida dos seres humanos. Claro que não iremos observar macro-evolução, visto que a evolução é gradual e lenta, não vai sair de um cavalo um animal totalmente diferente, pode aparecer uma espécie diferente, mas as diferenças serão insignificantes.

Os criacionistas falam de kinds em vez de espécie. Não definem o que um kind é, tanto é que nem vou traduzir kind para tipo, visto o significado tão obscuro que lhe atribuem. Dizem que a evolução só ocorre entre o mesmo kind, mas não se vêem animais a transitar de um kind para outro. Isto implica que teriam que existir dois tipos de ADN, um que modifica dentro do kind e outro que não. Contudo sabemos bem que isso não é verdade.

Afirmam também que nunca foi observada a transição entre espécies (ou kinds) o que também não é verdade. Um grupo liderado por Richard Lenski está há mais 20 a trabalhar com bactérias E. Coli, onde efectivamente observaram as bactérias a evoluir. Separadas em 12 grupos as bactérias apresentam agora diferentes características tendo todas partido da mesma população inicial. Um dos grupos conseguiu crescer em ácido cítrico.

And like Joe Pesci it doesn't fuck around.

Hovind supostamente oferece 250 mil dólares a quem apresentar uma prova empírica da evolução. Isto é, supostamente, pois analisando as “regras” da coisa vemos que não é tão fácil, nem sequer é possível. Primeiro existe uma nota que afirma que quando refere evolução, não se refere a micro-evolução. Ou seja, temos que apresentar uma prova empírica da evolução mas não podemos usar uma parte da evolução, a evolução que ocorre durante o tempo de vida humano. Temos de provar a evolução sem usar a evolução. Algo que já foi feito muitas vezes, mas os criacionistas recusam-se a admiti-lo.

A evolução é uma realidade. Temos como provas os órgãos homólogos que em alguns casos são vestigiais. Por exemplo uma baleia que é um mamífero, tem à semelhança dos seus “semelhantes” terrestres, um par de ossos que lhe são inúteis: a pélvis e o fémur. Não existe razão para que Deus ou o Desenhador Inteligente tenha enfiado um fémur e uma pélvis na baleia, porque lhes é inútil. Claro que as semelhanças entre o Homem e os outros primatas são óbvias. A existência de um enorme número de fósseis dos nossos ancestrais prova sem qualquer dúvida que somos símios. Temos de facto tantos fósseis que estão a haver problemas sobre que espécie classifica-los.

Isto acontece porque um Homo Habilis não dá a luz um Homo Erectus sem mais nem menos. A evolução só se nota quando analisamos intervalos de gerações muito grandes.  Por isso quando temos uma cadeia de fósseis completa, não podemos atribuir concretamente uma espécie a um dado fóssil. É como se imaginarmos o gradiente de cores que parte do Violeta até ao Vermelho, como temos em qualquer Software de edição de imagem. Podemos dizer que temos Amarelo e Verde, mas se ampliarmos o suficiente e formos caminhando pixel a pixel do Amarelo para o Verde, quando é que começa o Verde? Não se pode atribuir, a não ser de forma arbitrária o autocolante de Verde a uma cor, visto que a transição é tão suave.

O desenvolvimento humano foi uma receita que só podia ter dado aquilo que deu. Um ponto fundamental que proporcionou o desenvolvimento da inteligência foi a mão, resultante de uma mutação genética, ou uma colecção inteira delas. Uma mutação muitas vezes só altera algo no organismo quando outras anteriores já tomaram lugar. Tanto é que a grande maioria das mutações genéticas são neutras, e não afectam em nada o organismo. As mutações genéticas não são um processo puramente aleatório. Por muitas razões, entre as quais como o ADN é uma molécula a sua estrutura é gerida pelas leis da física, em especial atenção para o electromagnetismo, e por isso nem todas as combinações são possíveis.

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Ceres e a missão Dawn

19/02/2011

Giuseppe Piazzi foi um padre católico e que foi também um matemático e um astrónomo. Estabeleceu um observatório em Palermo, na Sicília. Supervisionou a compilação do Catalogo de estrelas de Palermo publicada em 1803, que contém 7 646 estrelas apontadas com uma precisão até a data sem precedentes.

Descobriu também o asteróide Ceres, o maior corpo da cintura de asteróides, que tem cerca de 32% da massa total da cintura. Ceres também é o corpo mais visível da região.  Descoberta feita em 1801 encontrou um corpo que se movia contra o fundo estelar. Inicialmente considerou que seria uma estrela fixa, quando notou que se movia, convenceu-se que era um planeta, ou uma “nova estrela”.

Anunciei esta estrela como um cometa, mas como não é acompanhado por qualquer nebulosidade e, também, visto que tem movimento tão lento e bem uniforme, ocorreu-me muitas vezes que talvez fosse algo melhor que um cometa. Mas tenho sido cuidadoso para não avançar esta suposição ao público.

– Giuseppe Piazzi, numa carta ao astrónomo Barnaba Oriani.

Em Setembro de 2007 a NASA mandou a sonda Dawn que deverá chegar ao asteróide Vesta entre 2011 e 2012. Vesta é o segundo maior corpo da cintura e tem 9% da massa total desta. Mais tarde tem planeada uma viagem até ao plante anão Ceres, lá para 2015. Durante o debate em 2006 sobre a classificação dos planetas, que levou a que Plutão fosse excluído da lista dos planetas principais, chegou-se a falar sobre dar o título de planeta a Ceres.

Antes da sonda, a NASA decidiu enviar um caça espacial para limpar o caminho, que era pilotado a partir da Terra por uma Atari 2600.

Existe a remota possibilidade de existir vida em Ceres, pelos vistos a NASA quer aumentar os locais de pesquisa além das famosas Titã e Europa. Supõe-se que possa existir uma fraca atmosfera em Ceres e até a possibilidade de água no estado líquido. Já foram apresentadas algumas ideais de que algumas formas de vida terrestres possam ter “contaminado” o pequeno planeta.

A missão planeada é para a sonda é para que esta entre órbita dos dois corpos. Com especial pormenor para Ceres. Os instrumentos que ela leva incluem uma câmara, um espectrómetro visual e de infravermelhos e um detector de neutrões e raios gama. Material que é para se analisar a composição química e a forma do planeta.

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O Homem nunca foi à Lua

17/02/2011

Vou a carga com as conspirações. Esta é provavelmente a mais famosa entre as teorias da conspiração, é a clássica diz que o Homem nunca chegou a Lua e aquela filmagem de 1969 da NASA a apresentar os seus astronautas foi na realidade gravada na terra – talvez nos sets do 2001: Odisseia no Espaço do Stanley Kubrick. Vou arrumar com algumas das “provas” e “problemas” apontados pelos lunáticos:

Como é que se na Lua não há atmosfera a bandeira ondula?

A bandeira foi colocada à mão no local, o que implica que ao espetar o poste no chão tiveram que aplicar alguma energia nele. O que aconteceu foi que ao largarem, a bandeira ondulou porque na Lua ao contrário da Terra, não existe atmosfera e a aceleração gravítica é inferior, por isso a energia não se dissipa tão depressa, por haver menor atrito e é por isso que a energia é mais facilmente conservada.

Como é que o módulo lunar que pesava 16 toneladas não deixa marcas, mas os astronautas deixam pegadas?

O módulo lunar ao aterrar continuou a usar os foguetes para poder aterrar ligeiramente, e não danificar a tripulação nem o equipamento. Na superfície da lua, existe só uma fina camada de pó, que assenta sobre rocha sólida. Ao aterrar os foguetes afastaram a camada de pó e o módulo ficou em rocha sólida. Enquanto que os astronautas se moviam a pé, deixaram as pegadas sobre o pó.

Alguém que diga aí ao Kubrick para desligar as luzes, já me doem os olhos.

Se acelerar-mos o filme eles parecem andar na Terra.

E? Qual é a surpresa? Os astronautas são seres humanos habituados a viver na Terra, obviamente que ao tentarem mover-se na Lua, por terem uma aceleração menor, vão mover-se mais devagar. Ao acelerar o filme, quer seja em formato digital ou fazendo um fastfoward numa cassete, reduzimos o tempo, o que aparenta a imagem ter uma aceleração maior, e por isso faz com que pareçam mover-se na Terra.

Como é que os astronautas sobreviveram à viagem por causa da exposição à radiação da cintura de Van Allen?

Talvez porque passar pela cintura de Van Allen é algo relativamente rápido, além de eles estarem dentro de uma nave, que já ia preparada para as condições. Contudo astronautas foram expostos à radiação cósmica, o que aconteceu? Conseguiam ver luzes mesmo quando tinham os olhos fechados, alguns chegaram a desenvolver cataratas nos anos seguintes.

Ao contrário do que possam pensar o Photoshop foi inventado em 1926 pela CIA, e foi usado para pintar um bigode nas fotografias do Hitler.

Como é que não há estrelas no céu lunar?

Isto acontece pela mesma razão porque durante o dia na Terra não se vêm estrelas. As fotografias foram tiradas durante o “dia” lunar, e por isso são expostas a uma boa dose de luz, mais ainda do que na Terra, visto que não existe atmosfera na Lua, a luz ao chegar a superfície é mais intensa porque não se dissipa por moléculas de gás. O que implica que a reflexão da luz no solo também é superior à que vemos na Terra, e até a luz reflectida é mais brilhante que a luz das estrelas.

Existem claramente mais do que uma fonte de luz, porque as sombras não são completamente negras.

Ou não. Tal acontece porque a luz é reflectida na Lua, tanto no solo, como nos fatos dos astronautas. Como já disse, a luz solar na superfície lunar é mais intensa, logo a luz reflectida também é mais intensa. Por isso é que não existem sobras completamente pretas na Lua.

A tripulação da missão Apollo 16 devia ter morrido por causa de uma labareda solar.

Talvez, se ela tivesse acontecido antes dos astronautas já estarem na Terra, e terem acabado a missão.

Os soviéticos iam frente da corrida, como é que foram os americanos a ganhar?

Por algumas razões, o facto do foguetão N1 soviético não ter sido tão bem conseguido como o Saturn V, por o último ter sido feito mais tarde, implantado melhorias no desenho. Além de que os soviéticos falharam muitas datas apontadas para atingirem as metas. Supostamente deveriam ter aterrado o primeiro homem na Lua em Setembro de 1968, contudo isso não aconteceu. Em teoria a missão soviética teria mandado um único astronauta. Os projectos só ficaram operacionais, e capazes de mandar um gajo à Lua em 1971. Mas como o orçamento foi evaporando rapidamente com o passar dos anos, acabaram por ser forçados a desistir da missão.

Hei! Quem é que foi o idiota que ligou o ar condicionado? O quê? Não há dinheiro para mais fita? Ora foda-se, vamos ter que inventar uma manha qualquer...

Para acabar este post, vou só deixar o meu clássico argumento: Os EUA estavam num período de grandes tensões com a URSS, a chamada Guerra Fria. Isto é importante porque uma das características mais importantes deste tempo foi a espionagem. Se os americanos tivessem feito um embuste não teriam os espiões do KGB dado com a fraude? Se houvesse alguma sombra de dúvida, os próprios cientistas soviéticos não teriam analisado com tudo o que tinham e não tinham cada uma das imagens, e cada um dos frames do vídeo?

Uma falsa viagem teria sido descoberta ao fim de pouco tempo, colocando os americanos à vergonha. O que seria uma grande ajuda à propaganda comunista. Fazer dos soviéticos parolos incapazes de dar com uma tramóia deste tamanho é algo ofensivo. Certamente que não serão meia dúzia de cabeçudos armados em espertos que irão dar com uma conspiração, quando a super-potência mundial da época não foi capaz de o fazer.

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