Antes de começar a sexta parte desta minha ficção cientifica que ficou em banho-maria durante mais de um ano, as minhas desculpas a todos os que deixaram comentários na altura mostrando interesse no que escrevi. Tenho a dizer que não continuei porque senti que a tinha deixado numa situação de bloqueio. Lá dei uma atinadela aos dois primeiros episódios para me facilitar a vida. Muito resumidamente, o que aconteceu até agora, e que não recomendo que vejam com demasiada atenção os episódios anteriores, visto que estão recheados de incoerências e erros.Ao que importa: um português o Capitão Hermenegildo Oliveira, foi enviado para o futuro. Enquanto estava na nave, cujo nome está no título do post, houve um problema técnico e por isso foi levado para um futuro mais remoto que o esperado. Chegado ao futuro foi atacado e quase morto por uma das facções deste meu futuro pós-pós-apocalíptico, sendo salvo por outra, e estando a espera de ser atendido por aquele a que chamam de presidente.
Os primeiros raios de Sol entravam pela mansão presidencial, acordando o capitão. Meio ensonado procurou pelo seu companheiro e guia, mas do qual não havia qualquer sinal de existência. Levantou-se e fez uma pequena análise pelo quarto, a tentar perceber o que raio se passava, com uma boa dose de nervosismo a correr-lhe pelas veias. Enquanto olhava para a cama onde supostamente deveria estar o outro, batem a porta:
- Sim?
- Capitão Oliveira, está na hora de ver o presidente.
- Está bem, já vou.
Ao sair da porta é agarrado pelos braços pelos dois guardas que o esperavam e arrastado ao longo de corredores. Os dois param em frente a uma grande porta bem trabalhada, abrem-na e atiram-no para dentro da sala por trás da porta, fechando-a de seguida. Lá dentro ouve alguém a tocar uma composição clássica que não conseguiu identificar. A sala era escura, e apesar de ter vidros estes eram tão escuros que só algumas partes da divisão eram iluminadas num forte tom azulado. Ao olhar em direcção ao som do órgão e do seu tocador, só consegue ver um vulto a mexer-se enquanto tocava. Ao sentir-se observado, a pessoa no vulto para de tocar, e volta-se na cadeira para o seu observador:
- Finalmente, nos encontramos Capitão Oliveira. Espero que tenha gostado dos aposentos oferecidos pela minha graça. E, aproveito para lhe pedir desculpas pela brutidade de alguns dos meus servos. Deixe-me apresentar-me, sou o presidente, o único membro do escalão N1. Prevejo que tenha algumas dúvidas em relação a tudo o que se lhe sucedeu, desde que deixou o ano de 2090, estou certo?
- Sim…
- Então, não se deixe intimidar, pergunte o que quiser, e deixe-me que lhe lembre que em comparação ao comum dos mortais esta é uma oportunidade única.
- Bem… Nem sei por onde começar…
- Que tal começarmos pelo princípio? Medindo pela sua acenação, creio que este é o melhor caminho a seguir. Primeiro deve-se estar a questionar porque veio ter a um futuro tão distante dos originais 31 anos. Isso deve a uma acção pouco ponderada pela agência espacial governamental indiana, que decidiu capturar um asteróide, cuja composição era maioritariamente cobre, algo muito valioso, no seu tempo como certamente sabe. A captura do dito astro só foi possível com a utilização do maior dos seus cargueiros espaciais, que por mero acaso, se cruzou na trajectória da sua nave, dez anos depois de ter iniciado a sua missão. Como sabe os sensores da nave estavam feitos para contar voltas, que seriam dadas a base localizada na Ota. Tal fez com que chegasse até nós.
- Ok… Isto ainda é de manhã, tenho de ser capaz de digerir o que me acabou de dizer… Obrigado de qualquer das formas, já agora posso perguntar o que aconteceu ao mundo, porque as coisas estão como estão?
- Refere-se a diferença do ambiente e de outras questões que deve ter observado actualmente, desde que aterrou. Creio que se lembra de um projecto considerado utópico anunciado alguns anos antes de ter partido pelo governo americano que o tornaria o único e mais que suficiente produtor de energia eléctrica do mundo.
- Sim. Era tido como uma novidade excelente, visto que tinham muita terra deserta. Além de que com o projecto de ilhas artificiais de baixo custo que tinham em plano as populações não teriam de ser deslocadas.
- Exactamente. Acharia surpreendente se lhe disse que conseguiram fazê-lo somente 10 anos após o início da sua missão?
- Surpreendente? Deve estar a brincar! Nem tenho palavras claras para expressar o meu espanto. Isto era tido como uma super utopia, como a energia nuclear de fusão, que nunca conseguimos fazer, sendo que esta ainda era melhor por resolver todos os problemas energéticos e mais alguns.
- Sim, a verdade é que realmente aconteceu. Todos os países independentemente das suas opções políticas pagariam com produtos aos Estados Unidos, e em troca receberiam uma dada quota energética.
- Não vejo problema nenhum nisso…
- Talvez seja, porque não sabe que houve um problema com o sistema.
- Como assim? Não funcionou?
- Tecnicamente falando, funcionou. O sistema operou durante algumas semanas sem qualquer problema. Operou durante o tempo suficiente para que todos desligassem os sistemas de produção energética alternativos, e se instalasse uma grande confiança no novo sistema. E antes de continuar, sabe qual foi o grande desafio que os humanos enfrentaram no século XXI pelos seus actos inconscientes, na procura incessante de energia?
- O aquecimento global?
- Sim, acabar com o aquecimento global. E sabe como foi conseguido?
- Pelos métodos de captura de gases poluentes lançada na década de 50. Sendo que o único país que ficou a utilizar métodos arcaicos na produção eléctrica foi a China. E como único país nesse estado não vejo o problema. Também a floresta amazónica foi reflorestada, e que na altura ocupava 95% da América do Sul, e também me lembro da reflorestação Africana que foi conseguida com a construção de uma série de pontes que ligavam a América do Sul ao continente africano.
- Sim, confirmo-o.
- Então o que aconteceu?
- Nove semanas após a utilização do sistema global de controlo meteorológico e energético, chocou com a Terra um meteorito…
- E provocou danos tão grandes? O sistema Star Wars não devia ter arrumado com ele, se ele era uma ameaça?
- Aparentemente não provocou danos. E era demasiado pequeno para que o Star Wars fosse activado. Teoricamente só iria fazer uma pequena cratera na Amazónia, e talvez um pequeno fogo, segundo os especialistas.
- E não fez?
- Sim. O que não sabiam é que dentro do meteorito existia uma colónia de bactérias…
- Bactérias extra-terrestres?
- Cinco anos depois de partir, foram descobertas colónias de bactérias nas nuvens de Vénus. Voltando ao que interessa, as colónias de bactérias extra-terrestres, como lhes chama, tinham uma complexidade enorme e um ciclo de reprodução extremamente acelerado. Visto que as moléculas necessárias a sua reprodução eram muito semelhantes as das plantas que existiam nas florestas. A medida que se iam reproduzir libertavam metano. Um ciclo de devastação havia começado, a medida que as plantas eram consumidas mais metano era libertado, creio que saiba o metano é um gás que provoca o efeito de estufa.
- Sim.
- Pois bem. Se lhe perguntar quanto tempo as bactérias levaram a chegar a África por intermédio das pontes atlânticas, quanto tempo prevê?
- Sei lá. Alguns anos?
- Treze horas. Cinco horas depois de chegarem a África, os sistemas de captura de metano foram activados. Contudo não foram eficazes no tempo previsto. As quantidades de metano na atmosfera aumentaram as temperaturas médias muito rapidamente.
- Estamos a falar de um aumento de quanto? Cem graus?
- Não. 10 graus no máximo.
- Dez graus não me parece muito problemático. Visto que depois de resolvermos os problemas do aquecimento global, as temperaturas médias desceram uns 12 graus.
- Lembra-se de lhe ter falado no sistema de produção energética americano, e que este para funcionar tão bem como lhe era pedido, tinha de ter a meteorologia a seu favor?
- Sim. Mas essa era parte do sistema, certo?
- Sim, era parte do sistema. O que certamente não sabe é que nas regiões onde estavam as placas fotovoltaicas as temperaturas eram quase críticas, para alguns dos componentes. Também a força a que o vento tinha a passar nos geradores eólicos, tem em parte o controlo da variação da temperatura. Estou a fazer-me claro?
- Sim, até agora…
- Pois bem, com um acréscimo de 10 graus na temperatura dessas regiões levou a uma calamidade. Os componentes mais sensíveis dos painéis derreteram e inviabilizaram-nos. Como o sistema era automático tentou aumentar a produção dos aerogeradores, como era comum fazer durante a noite, só que com maior intensidade. Contudo o computador do sistema, não estava programado para parar as velocidades do vento ao máximo dos geradores. Quando o vento atingiu os 550 Km/h os geradores desfizeram-se. Por fim, como o sistema funcionara tão bem, ninguém armazenava energia, visto que o sistema conseguia produzir continuamente por hora o triplo da energia consumida no mundo em dois meses. E sabe o que depende da electricidade?
- Carros, electrodomésticos, lâmpadas, e muitos outros.
- Qual foi tida como a terceira revolução industrial?
- Os computadores?
- Sim. E entre os milhares de operações que os computadores controlavam no seu tempo, que era praticamente tudo, estavam os sistemas prisionais de todo o mundo. Imagina o que se seguiu?*
- Bem, houve uma aposta das forças policiais em recapturar os prisioneiros?
- Instalou-se o caos. Sem qualquer forma de punição numa questão de horas, hordas de criminosos derrubaram sistematicamente todos os governos. Instaurando-se como líderes tribais em regime de despotismo. A medida que as vontades revolucionárias das massas aumentavam, os líderes tribais tentavam aumentar a alegria dos seus servos com conquistas e mortes. A medida que continuavam neste ciclo vicioso de morte e caos, um grupo deles acabou por libertar de laboratórios de alta segurança alguns dos piores vírus e parasitas que haviam sido criados para casos de guerra biológica pelo governo russo. Os ratos da terra, são um exemplo do que acontece a quem for exposto a um dos milhares de vírus libertados.
- Meu Deus. Mas afinal, como é que vocês se livraram?
Antes de começar a falar, o presidente moveu-se para a luz. Onde o capitão podia observar um homem velho com aspecto cansado, e cheio de cicatrizes pelo corpo.
- Nós não nos livramos, Capitão Oliveira. Ninguém se livrou. E não foram só as novas doenças que apareceram, a libertação de radiação dos resíduos nucleares levou a mutações genéticas quase indescritíveis. Por exemplo, o meu povo tem uma esperança média de vida de 35 anos. Porque os nossos corpos estão capacitados para terem menos órgãos que o seu. Só temos um pulmão e um rim. Além de que estes como os restantes não duram muito. A poluição feita pela sua civilização entranharam mercúrio e outros metais pesados em demasiados reservatórios de água, e por isso somos ainda mais frágeis, além de que já nascemos com parasitas.
Voltando para a escuridão, continua:
- Sabe quantos anos eu tenho?
- Não sei… pelo que me disse… 30 anos?
- Pensa que com uma esperança de vida de 35 anos nós chegamos a velhos?
- Não sei… quer dizer…
- Não. Simplesmente não chegamos. Mas eu sou velho como pode observar. E se eu lhe dizer que tenho 137 anos solares. Acharia isso muito?
- Não pode…
- Posso. Desde que tenha órgãos novos a cada década, e não imagina o quão doloroso as operações são em anestesia. Os médios esperam que eu não sobreviva mais de três operações devido as dores. Contudo, veio ter as minhas mãos uma salvação temporária. Você. Com um corpo perfeitamente saudável, e em certos casos o dobro dos órgãos que possuo. Pode prolongar os meus dias na Terra durante muito mais tempo. E por esta altura penso que já sabe o que pretendo. No seu lugar obedecia-me, não vejo por onde tenha alternativa. Tenho a mansão recheada de guardas, irá juntar-se a mim quer queira quer não.
Com a adrenalina no rubro, o Capitão Oliveira, começa a pensar no seu futuro penoso numa sala de operações em que os órgãos lhe seriam removidos sem qualquer alívio de dor. Ocorreu-lhe um flash de puro instinto, que lhe deu uma última esperança. Correu para a uma das janelas de vidro escuro, fechou os olhos e saltou. Ao partir o vidro e enquanto caía, ainda por entre o som dos estilhaços de vidro conseguiu ouvir o presidente aos berros a chamar os seus guardas.
*Se não fosse um dos actos do George Carlin eu nunca teria conseguido sair-me com esta.