A evolução não é uma teoria
por Miguel Guerreiro
Não sei se já repararam mas o YouTube está repleto de “especialistas” em criacionismo que afirmam conspirações ou simplesmente que a ciência não sabe aquilo que afirma. Obviamente, a maioria deles são americanos, já se sabe que eles têm todos a mania que toda a gente, mesmo que não percebam nada do assunto têm o direito de dizer o que bem lhe apetecer, transformando-se num profeta da ordem de Deus.
A evolução não é uma teoria. A evolução é um processo que ocorre e não existem dúvidas sobre o assunto. A única coisa de teórica é o modelo que usamos para a descrever. Por outras palavras a evolução existe, é na forma que ela ocorre que nós podemos estar errados. Não que eu julgue que tal seja provável.
Acho incrível ver pessoas que não compreendem como funciona o processo, diga-se de passagem que é relativamente simples, defenderem que a evolução não existe ou que está errada. Também me preocupou num episódio dos Contemporâneos em que me foi dado o “prazer” de apreciar dois tugas que renegaram a evolução: tretas, então não foi Adão e Eva?, O Homem é Homem e o Macaco é Macaco. As vezes decepciono-me com as mentalidades, espero que sejam parte dos sete (não me obriguem a colocar aqui a palavra milhões) portugueses que levam o criacionismo a sério.
“Especialistas criacionistas” como o mítico “Dr.” Kent Hovind, que agora está preso por fuga fiscal, note-se que isso não que dizer que ele não possa ter razão, bem, na realidade não tem, mas enfim. Note-se que ele é tão doutor quanto eu, e não sou doutor. Este senhor doutor e companhia fazem o favor de incluir o Big Bang na “Teoria da Evolução”, isso é mentira, o Big Bang é exclusivamente o modelo cosmológico mais apoiado, e quer num Universo do Big Bang ou outro (Estado Estacionário, Estado Quase Estacionário, Universo Estático, …) a evolução pode acontecer. A origem da vida também não é incluída na “Teoria da Evolução”.
O criacionismo parte da ignorância, foi criado há alguns milhares de anos, certamente, desde o momento em que o Homem se perguntou de onde raio é que nós saímos? A explicação óbvia para o povo no início da sedentarizado, era que o Sol ou outro deus qualquer que tivessem, os tivessem criado por processos mágicos e fantásticos de diferente ordem de complexidade.
Ninguém se lembrou de evolução durante muitos anos porque ninguém conhecia o mundo. Não haviam registos de muitos animais e não se conheciam espécies extintas preservadas como fósseis, além disso diferentes culturas conheciam diferentes seres. Os africanos conheciam leões e zebras. Enquanto que os europeus conheciam pássaros e javalis. Os indianos tinham tigres e elefantes. E relativamente a estes conhecimentos básicos, em que se restringiam a chamar ao animal aquilo que quisessem e, por outro lado, limitavam-se a reconhecê-lo, os mitos surgiam sempre associados aos seres que eles conheciam.
Por isso é que a arca de Noé é miseravelmente pequena para conseguir ter um casal de todos os seres terrestres lá dentro. Foi feita para caberem os animais que eram conhecidos pelos hebreus. Claro, os seres microscópicos ficaram de fora, tal como os insectos. Ora se a arca tinha 300 côvados de comprimento, 50 de largura e 30 de altura, segundo a Tora que tenho aqui. Sendo um côvado igual a 52,4 centímetros. Façam as contas e verão que temos uma arca com cerca de 160 metros de comprimento, 26 metros de largura e 16 metros de altura. Pode parecer enorme, mas não é. Primeiro a medida de um côvado parece ter aumentado ao longo do tempo, a medida que o homem se alimenta melhor ocorre um aumento da sua estatura. Infelizmente não faço a menor ideia de como calcular o volume da arca, vou assumir erradamente como se ela fosse um paralelipípedo, e posso concluir que ela teria menos de 66 mil metros cúbicos. Pode parecer muito, mas depois de colocarmos um par de elefantes, hipopótamos e mais uns poucos o espaço desaparecia num instante. Não cabem lá tantos animais quanto se reza. Claro que gostava de ver um gajo com a tecnologia do Noé conseguir fazer uma arca tão grande, especialmente sem conhecimentos na matéria.
A questão sobre a origem do Homem não foi levantada até ao renascimento, uma fase cultural em que o antropocentrismo começa a ter um papel importante. O conhecimento era necessário para o Homem ser perfeito, tivemos grandes cabeças desse tempo, sendo Leonardo da Vinci o mais conhecido, actualmente pelas razões erradas. Os descobrimentos, e não propriamente os portugueses e espanhóis, levaram ao conhecimento de novos seres. Um pequeno passo em direcção a evolução.
Só no século XVIII é que se começaram a classificar os seres vivos, essa classificação teve uma maior complexidade com o passar dos anos, mais seres eram descobertos e mais características eram apresentadas para cada um, que fossem elas anatómicas ou comportamentais. George-Louis Leclerc (1707-1788), mais conhecido por Conde de Buffon, após ter passado muitos anos a analisar anatomicamante fósseis de seres extintos e esqueletos, afirmou que a espécies provavelmente se transformavam ao longo do tempo. Mas nunca chegou a um principio muito importante da evolução: os seres têm uma origem comum.
O primeiro evolucionista realmente convicto foi Lamarck (1744-1829). A teoria evolutiva de Lamarck, defendia que os seres se adaptavam ao meio, esforçando-se para isso. Esta teoria está baseada em duas teorias:
- Primeira Lei: Em cada animal que não passou o limite do seu desenvolvimento, um uso mais frequente e contínuo de um certo orgão torna-lo-à (o orgão) mais forte, desenvolvendo-o e aumentando o seu tamanho, crescendo proporcionalmente ao tempo que é usado. Por outro lado o desuso permanente de um dado orgão imperceptivelmente torná-lo-a mais fraco deteorizando-o (ao orgão), progressivamente diminuindo a sua funcionalidade até que finalmente desapareça no processo evolutivo.
- Segunda Lei: Todas as aquisições ou perdas naturais nos indivíduos, devido a influência do meio em que a sua raça se encontra há muito tempo, leva ao uso ou desuso permanente de um certo orgão. Estas características são preservadas pela reprodução, passando aos novos indivíduos as modificações ganhas pelos seus progenitores/progenitor.
Contudo sabe-se que os seres não se adaptam ao meio, mas pelo contrário, o meio é que selecciona os mais aptos, a isto chama-se selecção natural, um dos pilares da teoria de Charles Darwin (1809-1882). Com 22 anos, já Lamarck havia morrido, Darwin parte numa expedição a bordo do Beagle. Segundo a lenda, quando chegou as ilhas Galápagos no Pacífico, encontrou duas espécies de tartarugas, aí questionou-se se seria possível que as tartarugas tivessem uma origem comum. Darwin que fora criador de pombos, sabia que a selecção artificial permitia-lhe escolher os pombos com características vantajosas, vendo que mesmo sendo tartarugas, uma estava mais “apta” a sua ilha e a outra igualmente mais “apta” a respectiva ilha.
A Teoria de Darwin propõe que todos os seres se propagam descontroladamente, ou seja, uma população propaga-se geometricamente. Contudo por outro lado, os alimentos produzem-se aritmeticamente. Por exemplo se a população se propagar pela função x^2 (1,4,9,16,25,…) os alimentos serão produzidos em 2x (2,4,6,8,10,12,…). Devido a escassez de alimento os seres terão de competir para o obterem. O mecanismo de Darwin processa-se do seguinte modo:
- Existe uma população inicial com variedade de características.
- As espécies produzem mais descendentes do que aqueles que podem sobreviver, devido a escassez do alimento ao fim de umas gerações.
- Existe entre os indivíduos luta pela sobrevivência e reprodução.
- Devido a variedade inicial de características uns seres têm maior possibilidade de sobreviver e reproduzir, passando as suas características a geração seguinte.
Contudo estas conclusões não foram exclusivas de Darwin, Alfred Wallace (1823-1913) que trabalhava na Malásia, chegou basicamente as mesmas conclusões de Darwin. Quer Darwin ou Wallace não foram capazes de explicar a existência da variabilidade inicial de uma espécie nem como eram transferidas as características para nova geração. O primeiro passo para a explicação deste fenómeno foi feito pelo parde Gregor Mendel (1822-1884), que é considerado o pai da genética. Nada que ele apresentou foi de facto confirmado até ao século XX, mais concretamente aos anos 40, com a descoberta da molécula de ADN e progressivo estudo.
Hoje sabemos que as mutações genéticas causadoras das variabilidade dos indivíduos é resultante de erros durante a replicação do ADN durante a meiose (fenómeno que serve para formar os gâmetas). Podendo ocorrer simplesmente por um erro na replicação da molécula inicial de ADN ou durante o crossing-over, em seres com reprodução sexuada ocorre com mistura de cromossomas dos progenitores, transmitindo características dos progenitores para os seus descendentes. As mutações genéticas podem ser benéficas ou não. Por exemplo numa espécie de ratos brancos em que existe um rato cinzento, e esta espécie é predada durante a noite, o rato cinzento tem maior probabilidade de sobreviver em relação aos outros.
Os criacionistas apresentam como resposta a toda a “teoria evolucionista” que faltam seres na árvore da evolução, os tão afamados missing links. Esses missing links representam fósseis que não foram encontrados. Ninguém até hoje afirmou que vamos encontrar fósseis de todas as espécies de seres que alguma vez existiram. A fossilização é um processo relativamente raro e só ocorrem em condições propícias. Por exemplo, basta haver oxigénio a mais na bacia de sedimentação para que não se forme um fóssil, porque as bactérias aeróbias irão sobreviver e digerir o indivíduo.
O grande problema para os criacionistas é que afirmam que a evolução é morte, e em certa medida é exactamente o que se passa. Isto parece horrível, devido aos preconceitos que nos foram ensinados desde novos, mas é em certo modo a realidade. A medicina e a agricultura não são progresso.
A micro-evolução uma parte importante para o debate segundo os criacionistas, eles admitem que existe a micro-evolução mas a macro-evolução não ocorre. Bem tenho a dizer que a não existe diferença entre a micro-evolução, macro-evolução e evolução. A micro-evolução é evolução, é a evolução que ocorre numa espécie num período de tempo reduzido, o tempo de vida dos seres humanos. Claro que não iremos observar macro-evolução, visto que a evolução é gradual e lenta, não vai sair de um cavalo um animal totalmente diferente, pode aparecer uma espécie diferente, mas as diferenças serão insignificantes.
Hovind supostamente oferece 250 mil dólares a quem apresentar uma prova empírica da evolução. Isto é, supostamente, pois analisando as “regras” da coisa vemos que não é tão fácil, nem sequer é possível, por isso isto é uma não-oferta. Primeiro existe uma nota que afirma que quando refere evolução, não se refere a micro-evolução. Ou seja, temos que apresentar uma prova empírica da evolução mas não podemos usar uma parte da evolução, a evolução que ocorre durante o tempo de vida humano. Temos de provar a evolução sem usar a evolução.
A evolução é uma realidade. Temos como provas os orgãos homólogos que em alguns casos são vestigiais. Por exemplo uma baleia que é um mamífero, tem à semelhança dos seus “semelhantes” terrestres, um par de ossos que lhe são inúteis: a pélvis e o fémur. Não existe razão para que Deus ou o Desenhador Inteligente (o novo nome bonito de deus para os pseudo-ciêntistas) tenha enfiado um fémur e uma pélvis na baleia, porque lhes é inútil. Claro que as semelhanças entre o Homem e os outros primatas são óbvias. Como é que explicamos que comemos bananas como os macacos se nunca aprendemos a fazê-lo olhando para macacos? Isto acontece porque somos macacos como eles, só temos diferentes mutações.
O desenvolvimento humano foi uma receita que só podia ter dado aquilo que deu. Um ponto fundamental que nos deu a inteligência foi a mão, resultante de uma mutação genética. Ao sermos uma espécie que nunca fora naturalmente um grande predador, com uma mão e muito tempo para pastar, fomos analizando pedras, e tudo o que conseguiamos agarrar. O endireitamento da coluna permitiu-nos ver mais longe. Por fim a voz permitiu-nos transmitir de forma clara às gerações vindouras aquilo que aprendemos, e assim começar a civilização.
Apesar da teoria de Lamarck ser classificada como falsa para as formas de vida de maiores dimensões, alguns cientistas afirmam que certos microrganismos evoluem segundo o mecanismo de Lamarck. Contudo se essas mutações são directamente causadas pelo “esforço” ainda não está bem esclarecido. Cientistas de Oxford em 1988, usaram uma versão mutante de uma bactéria a E. Coli, que era incapaz de consumir açúcar lácteo lactose*, e colocando-as num meio em que a lactose era o único alimento. Observaram que com o tempo mutações ocorreram na população adaptando-a ao novo meio. Ou seja, se as bactérias de facto foram capazes de ultrapassar a incapacidade de consumir a lactose, pode ser considerado de certa forma Lamarckismo. Existem também evidências que apontam que células podem activar ADN polimerases de “baixa qualidade” (enzimas que actuam na replicação da molécula) para aumentar a quantidade de mutações.
*Não sei se açúcar lácteo é a tradução correcta, mas para o caso é irrelevante. Por acaso a Mafalda Ferreira fez o favor de me corrigir, e eu como sou uma besta só o fiz agora “uns” meses depois, e claro se eu usasse a cabeça lembrava-me da fructose e da glicose, mas como podem ver o nome correcto é lacotse.
Actualização: Corrigi ortograficamente (ainda é capaz de ter um erro ou dois, avisem-me se encontrarem mais algum) e ciêntificamente (mitose é diferente da meiose) o post, adicionei uma fotografia de Mendel e também aproveitei para dar mais umas pequenas informações sobre o Lamarckismo.












Finalmente, um texto como antes me tinhas habituado. Longo e interessante! Quando voltas à regularidade?
Excelente, magnífico post. Só uma pequena correcção: a evolução é uma teoria… teoria no sentido científico. A confusão (muito aproveitada pelos creacionistas) é que “teoria” em linguagem corrente tem um significado bem diferente, tipo algo em que pensámos enquanto bebíamos um copo.
Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/E.....y_and_fact
@Pedro,
“Finalmente, um texto como antes me tinhas habituado. Longo e interessante!”
Isso é culpa do Sagan, ando a ler um livro dele, e hoje senti-me inspirado, peguei no Mousepad e desatei a escrever, com muitos erros ortográficos (entretanto corrigidos). Quanto a regularidade, estou a tentar.
@Pedro Timóteo
Obrigado. Sim, a evolução é uma teoria no sentido cientifico (pode ser refutada), se bem que está entre as teorias mais testadas e comprovadas. É um pouco como apostar nas leis da física, se eu fosse apostar em quais serão as que são 100% verdadeiras e que nunca falharão apostaria nas Leis da Termodinâmica porque são as mais bem testadas e comprovadas. Quanto a teorias a evolução simplesmente funciona, e o fenómeno existe (observamos-o como a micro-evolução, mas como não há diferença prática entre esta e a evolução, é porque existe). Já é um pouco tarde, mas prometo que amanhã vou ler a tal página da wikipédia e talvez adicionar mais qualquer coisa ao post.
Não será lactose?! (o açúcar lácteo…)
Está muito bom o post! Andava praqui a pesquisar à cerca da micro e macro-evolução e fiquei mais esclarecida, já qe o meu prof de B. Invertebrados não soube explicar bem xD
mais uma vez, 5*
Ok, primeiro shame on me por só responder agora.
Quanto a lactose faz perfeito sentido, e vou tratar de corrigir o erro.
Já agora, obrigado