O Universo com 6 mil anos
por Miguel Guerreiro
Estava eu muito entretido pela Internet até que deparei-me com um site de uma tal de Creation Ministries International, que por trás está uma colecção de criacionistas a maioria deles australianos. A semelhança do nosso grande amigo Kent Hovind estes também são daqueles que pensam que o Universo só tem 6 mil anos. Aposto que o Hovind só não está na lista porque foi preso por fuga ao fisco. Alguns podem pensar que isto foi uma coisa excelente ele ter acabado na prisão, mas se querem que vos diga aposto que por esta altura já deve ter convertido para as suas pseudo-teorias uma boa dose dos seus novos amigos e companheiros, incluindo alguns dos guardas.
Deixando o Hovind em paz que deve ter muito que brincar com os seus novos colegas, apresento hoje o Dr. John Hartnett. Sim, este parece que é mesmo doutor, não é daqueles gatos pingados que fazem de conta como o Kent. Está também na hora de apresentar outra novidade: a CreationWiki. Se pensavam que a Conservapedia era uma obra prima, esta mete-a a um canto. Se não acreditam façam uma pesquisa na Wikipédia e na CreationWiki sobre o Big Bang. Aparentemente são iguais, mas quando analisarem o tamanho dos problemas apontados, ou melhor ainda, evidências contra, e vão perceber do que estou a falar.
Uma visita a CreationWiki com o nome John Hartnett irá apresentá-lo muito bem, resumidamente, é um professor de física da University of Western Australia. Este é o tipo de indivíduo que levou aquela “pequena” lavagem cerebral da igreja quando era pequeno, e quando já era homem, um dia de manhã a fazer a barba olhou-se ao espelho, e pensou: “Olha, sou tão bonito que só posso ser uma obra de Deus, só pode“. Por isso achou boa ideia lavar o que ainda restava do próprio cérebro e aproveitar para fazer o mesmo a mais alguns que encontrasse pelo caminho.
A pergunta que se me impõe sempre é que raio é que os cristãos podem querer mais que o Big Bang? Vá, a teoria não é propriamente religiosa, mas encaixa bem dentro das tretas que estes gajos querem tanto acreditar. Aí têm uma criação, agora metam um deus a desencadear o Bang e a dar uma vista de olhos a volta do seu trabalho. O Papa João Paulo II, que sendo papa, fora a maior autoridade realmente existencial da igreja católica, foi pelo menos esperto o suficiente para dizer que o Big Bang está de acordo com as crenças cristãs. Agora vêm estes malucos dizerem que não, nada disso, o Universo só tem 6 mil anos.
Claro que se estes viessem com o Big Bang eu iria usar os meus bons e velhos truques para tentar limpar Deus da equação. A questão é simples, existem para aí alguns físicos que estragam tudo quando começam a dizer que o Big Bang parece o Génesis, a ideia é de que Deus desencadeou o nascimento do Universo, visto que neste modelo ainda não existe uma causa provocadora, e por um lado compreendo, porque não vejo onde a possam arranjar. Mas a questão que se segue é de onde veio Deus? A resposta destes é, geralmente, Deus criou-se a si mesmo. Mas se Deus criou-se a si mesmo, porque raio é que o Universo não o pode fazer? Sim, porque raio é que não removemos Deus da equação, e simplesmente dizemos que o Universo criou-se a si mesmo?
Toda esta série de pseudo-teorias seria facilmente evitável com um simples processo: Sempre que um físico que queira ter qualquer relação com a astronomia, no fim do curso seria levado para um quarto escuro. Quando digo escuro, quero mesmo dizer escuro, nenhum tipo de radiação lá dentro. Se o gajo é católico iriam buscar aqueles nossos amigos da Maçonaria, que eles tanto gostam, e davam-lhes um daqueles rituais de iniciação de que são normalmente acusados. Por fim, o gajo ficava dentro do quarto durante mais três dias sem comida e totalmente isolado. No fim, dois gajos com um holofote chegavam-se perto dele, injectavam-lhe o dito soro da verdade e com o holofote apontado a cara do candidato, perguntavam-lhe como é que ele achava que o Universo havia começado. Se ele dissesse por exemplo, o Universo não começou e é estático, os gajos diriam – “Ok, podia ser melhor, mas está bem, passaste.” - Iam buscar uma daquelas canetas com flashes que apagam memórias ao estilo do MIB. Por outro lado se a resposta fosse Deus fez o Universo há 6 mil anos, os inspectores simplesmente diriam – “Não, não dá pá. Veste lá este colete de forças que vais agora para um quarto branquinho.”
Podia tentar ser um pouco simpático com estes tipos, mas não dá, eles são malucos. Este dito Hartnett baseia-se nos trabalhos do Halton Arp. O Arp diz que as nossas interpretações do desvio para o vermelho (redshift), que é dado como um indicador do afastamento das galáxias, estão erradas. Primeiro, temos de ser modestos porque os trabalhos deste só envolvem alguns Quasares, e entre se admitir que podemos estar errados quanto ao desvio para o vermelho ainda vai uma distância boa até se poder dizer que o Universo não se está mesmo a afastar.
Os Quasares são tidos como os objectos mais distantes de nós, e admitindo o Big Bang como modelo eles são aquilo que existiria neste local do Universo há uns bons milhares de milhões de anos. Tal deve-se a que a luz move-se a uma velocidade limitada, e por isso quanto mais longe apontarmos os telescópios mais antiga é a luz que vemos de lá. Se observarmos um objecto a 10 mil milhões de anos-luz, quer dizer que a luz saiu de lá há 10 mil milhões de anos, e por isso vemos o objecto como ele foi no tempo em que a luz saiu de lá, e não como é actualmente.
Em 6 mil anos nem sequer podemos ver a nossa própria galáxia como deve de ser, não existe tempo para os fotões fazerem a viagem. Mesmo que os Quasares estejam na vizinhança cósmica como defende o Arp, isso não resolve problema nenhum para estes tipos. Estive para aqui a ver o Génesis, e pelo que percebi ele criou o Espaço no primeiro dia: «No principio, Deus criou o céu e a terra.» Ora, para criar isto precisou de espaço, certo? Quanto a origem do Tempo, é decepcionante não encontrar algo, será que o fez ao mesmo tempo que o Espaço? Vou assumir que sim. Isto no primeiro dia.
Pelos vistos Deus levou 5 dos 6 dias ocupado com material da Terra, e claro com o Sol. Tendo-se ocupado do resto do universo só no quarto dia. Então ele levou 5 dias para fazer isto? A Terra é o melhor que ele consegue fazer? Maldita decepção, cinco dias de trabalho, deixem-me que vos diga para um ser supremo não estou de forma alguma admirado. Quer dizer 5 dias para o Sistema Solar (isto é, entre aspas, porque não há referência aos planetas) e um único para os triliões e triliões de estrelas e outros objectos no Universo. Está-me a parecer que ele só teve vontade de trabalhar a sério no quarto dia.
Portanto no primeiro dia temos o Espaço, o Tempo e a Terra. E de onde raio é que saiu o resto? Apareceu magicamente? Puff! E apareceram galáxias recheadas de estrelas por tudo quanto é sítio. Voltando ao tamanho do Universo, tenho a dizer que é impossível que ele tenha sido formado em tão pouco tempo. Eu já tenho problemas com o pouco tempo que passou num Universo com o Big Bang, e agora vêm estes gajos dizer que o Universo é uma milionésima insignificante desse tempo.
Só existe uma forma de explicar isto que é pela VSL (Variable Speed of Light) ou se quiserem c-decay (decaimento da suposta constante c, que é a luz). Admito que a VSL é uma maneira muito inteligente de tentar solucionar alguns dos problemas do Big Bang, como alternativa a Inflação Cósmica. Contudo existe um grande problema, que é extremamente agravado num Universo com 6 milénios. O problema é que se a velocidade da luz foi ficando mais lenta com o tempo, então podemos verificá-lo. A diferença é que num Universo à lá Big Bang, temos 13,7 mil milhões de anos e a redução deve ser suave, e por isso mais difícil de verificar. Agora em 6 milénios tem de existir uma super velocidade da luz original, para dar tempo a luz para se deslocar pelo cosmos num período de tempo tão pequeno.
A diferença de tempo é tão pequena e a medir pela velocidade da luz original, poderíamos fazer um teste relativamente simples. Visto que a velocidade da luz tende a decair para um valor muito inferior num período de tempo como 20 anos, que representaria 1/300 desde a génese do Universo, poderíamos ver a velocidade a cair. A não ser por acção de uma força divina, o que seria “batota” para um cientista, não faz sentido que o decaimento não continue. Diga-se que tanto quanto sei, a velocidade da luz ainda é tida como constante há muitas décadas.
A Terra tem de facto 4600 milhões de anos, tanto esta como o resto do Sistema Solar. Não há volta a dar, o Universo tem de ser mais velho que isto. Tanto é que tem de ser bem mais velho. Visto que todos os elementos acima do Hidrogénio e do Hélio são formados nas estrelas, e isto também depende do tamanho destas, precisamos de pelo menos uma ou duas gerações de estrelas bem grandes para formar elementos pesados. E este tipo de elementos são relativamente comuns no nosso sistema planetário, e até temos o Urânio que é extremamente pesado.
Além disso que tal o registo fóssil? Esperem aí, no site ainda existe um DVD – que aconselho vivamente a NÃO COMPRAREM – em que se pode ver um trailer, o pseudo-documentário é intitulado como Darwin: The Voyage that Shook the World. No trailer podem ver uma coisa espectacular que é mais ou menos esta pergunta: Será que as observações de Darwin ainda se mantêm de pé ao fim de 150 anos? A resposta é: Sim, caralho, claro que sim. Mais do que nunca.
Não há duvidas, quanto a base teórica o Darwin acertou em tudo, e já agora não custa nada lembrar do seu contemporâneo Alfred Wallace que chegou as mesmas conclusões num trabalho independente. Também não se pode explicar a existência dos fósseis num Universo tão pequeno, simplesmente também não é possível. Geralmente alguns destes malucos, dizem que os fósseis foram postos por Deus para testar a nossa fé. Ou que foi o Satanás para criar descrédito em Deus. Esperem aí, primeiro vamos acreditar nos fósseis só para ver o que Deus faz, como por exemplo, um segundo dilúvio. Digam-lá que não era um bonito espectáculo, e desta vez a arca teria de ser maior, parece que apareceram mais animais desde o último, é que com o tamanho da antiga já lá não cabem todos. E para não haver descriminação talvez levássemos um macho uma fêmea de cada, e já agora mais dois machos e mais duas fêmea.*
E já agora quem é que se lembra dos estratos geológicos? Pois bem, se querem acreditar que um dilúvio seria capaz de o fazer, então provem-no. Peguem em areia, e duas ou três variedades de terra, encham o fundo da vossa banheira com isto. Molhem-na um bocadinho todos os dias, até por volta de um mês, para que ela fique mais compacta. Ao fim disto, comecem com o dilúvio, isso mesmo comecem a enchê-la, mas sem exageros, só até taparem a terra. Contudo convém encher muito devagar, não se esqueçam que choveu 40 dias e 40 noites, pois é, tem de ser mesmo muito lento e em todo o lado ao mesmo tempo, coisa de 20 horas para encher aquilo lentamente é capaz de não andar muito longe da ideia. Por fim, deixem a água evaporar, e garanto-vos que se não aldrabaram, não vão ter estrato nenhum.
Voltando a idade da Terra e do resto do Sistema Solar, temos graças a datação radiométrica uma evidência inegável que a Terra tem muitos milhões de anos. Este tipo de datação baseia-se no decaimento de elementos radioactivos em isótopos estáveis, sendo este parâmetro conhecido como tempo de semi-vida. O tempo de decaimento é bastante preciso e por isso conseguimos saber através da diferença de percentagens do átomo-pai e do átomo-filho a idade absoluta de uma determinada rocha. E as rochas mais antigas que conhecemos têm mais de 4 mil milhões de anos. Obviamente, não é possível que o Universo seja mais novo que isso, tanto é que precisa de ser bem mais velho.
Estes gajos não são propriamente estúpidos, são é completamente apanhados do clima. Eles gostam mesmo de complicar, raio o Big Bang devia ser uma oferta dos deuses, primeiro por ter sido apontada por um padre, Georges Lemaître, e por ter sido aceite por um Papa como aceitável com as crenças. Já agora, hoje saltei a defesa do Big Bang, mas não se habituem, está bem? Enquanto algumas pessoas continuarem a ouvirem estas baboseiras, é que nunca mais saímos do sítio, este é o tipo de coisa que nos retraem como uma espécie. As vezes gostavam que aparecessem uns ETs, e mesmo por mais verdes e óbvios que fossem, desde que descessem de um disco voador, olhassem para estes gajos, olhos nos olhos, e dissessem: Calem-se, estão errados. Estamos cheios das vossas merdas, ou se calam ou entram ali para dentro para fazermos umas experiências maçónicas.
*Piada homofóbica, não resisti…
PS.: O ritual de iniciação maçónico, aqui apresentado não deve ter nada a ver com a realidade, é inspirado unicamente nas tretas que a maioria dos católicos os tem acusado ao longo dos tempos, é um mito. Já agora alguns erros ortográficos e de sintaxe são esperados, mas não estou com cabeça para andar a rever isto hoje, fica para amanhã. Os mais graves já devem estar corrigidos.










Bem, penso que vais gostar bastante deste texto.

A sátira ao Criacionismo, feita pelos moços/as do The Onion é simplesmente brilhante!
http://astropt.org/blog/2009/12/30/cebola-em-2009/
Por acaso não está mal, mas não penso que uma sátira disto deva ser como eles fizeram, de qualquer das formas está giro
Que grande texto. Adorei.
Obrigado