O Cérebro de Broca

Tenho andado a ler O Cérebro de Broca: Reflexões sobre a beleza da ciência, do Carl Sagan. Na verdade não tenho andado a ler, já o li. Se não sabem quem foi Carl Sagan podem ir dar uma corrida a Wikipédia, ou, simplesmente ler a mini biografia que deixo aqui (quase cópia do que está no livro). Sagan (1934-1996) foi professor de Astronomia e Ciências Espaciais, esteve envolvido nas missões Mariner, Viking e Voyager. Foi um grande divulgador de ciência, especialmente para a língua inglesa.

Note-se que este post pode conter spoilers, e se são daqueles que não gostam de saber o que o livro tem antes de o ler, parem de ler, corram a uma livraria e comprem o livro. Honestamente, não concordo com o subtítulo exposto, mas é irrelevante para a qualidade do livro, diga-se de passagem, fácil de ler e não é preciso ter qualquer conhecimento cientifico para se perceber, no entanto se calhar vão perder um ou outro pequeno detalhe mas nada que seja relevante.

Começa o livro com a apresentação de Paul Broca, um anatomista, cirugião, neurologista e antropólogo francês, a medida que conta uma visita ao Museu do Homem em Paris. Conta que no museu existem dezenas de orgãos preservados em frascos, entre os quais está o cérebro de Paul Broca. São expostos preconceitos do tempo (século XIX) de Broca sobre a raça humana, nos quais o próprio Broca concordava, dou o exemplo de que o Homem branco era superior ao Homem preto. Sagan questiona se ainda hoje não temos preconceitos ao mesmo nível que tinham os Homens do século XIX.

Também nos dá uma espécie de pequena biografia de Albert Einstein, e explica a famosa equação E=mc², e tão citada e tão pouco compreendida, entre outras visões do famoso físico alemão. A equação é uma ampliação da lei da conservação da energia para a lei da conservação da energia e da massa, em que a massa e a energia não podem ser destruídas, mas que podem ser convertidas uma na outra. Sagan dá o exemplo que a conversão completa de 1 g de massa liberta energia equivalente a mil toneladas de TNT.

Após Einstein, temos uma boa observação sobre o electromagnetismo e aquecimento global, começando em Michael Faraday, que descobriu que um campo magnético cria um campo eléctrico. Passando por Maxwell que estabeleceu teoricamente quatro equações matemáticas baseadas nos trabalhos de Faraday e outros, e que veio a descobrir-se que Maxell estava correcto.

Temos também uma parte muito interessante intitulada Os cultivadores de Paradoxos, que explora farsas utilizadas para enganar multidões, usando o suposto sobrenatural como meio para o conseguir. Começamos com Alexandre de Abonothicus, que criou um Deus serpente. Encontra-se o caso das irmãs Margaret e Kate Fox, que se contava que as miúdas faziam ouvir os mortos. Margaret por ter a consciência pesada sobre os embustes fez uma demonstração em Nova Iorque das suas habilidades, expondo a fraude, mas que curiosamente muitos dos ludibriados preferiram acreditar que ela fora obrigada a inventar uma fraude, criando uma conspiração. “Chico Esperto”, o cavalo matemático é outro.

Faz também referência ao povo africano Dogon, que Sagan acredita poder muito remotamente, ser o único povo que pode ter sido hipoteticamente visitado por extra-terrestres. Contudo também demonstra um fenómeno chamado difusão cultural. Essencialmente, e muito resumidamente, podemos concluir que o contacto com ocidentais e não se ter feito um registo inicial das culturas pré-existentes em todos os continentes, não nos permite ter a certeza que algumas das suas crenças são de facto ancestrais, podendo ter sido influenciados pelos exploradores europeus.

O tema mais explorado no livro é sobre o debate de Mundos em Colisão, um livro escrito por Velikovsky considerado como pseudo-ciência. Immanuel Velikovsky (1895 – 1979) tenta comprovar as suas afirmações com escritos sagrados de muitas religiões por todo o mundo, mas nunca considerou possível a difusão cultural. Ele defende que Vénus é um cometa expelido por Júpiter, e que teve uma série de quase colisões com a Terra, e note-se que afirma também que Marte também teve quase colisões com a Terra. Sagan desprova a tese de Velikovsky ao longo do capítulo por intermédio de dez afirmações que demonstra não serem possíveis. No que me toca, resumo a questão de Mundos em Colisão, ao seguinte: se Velikovsky conseguir comprovar algum mecanismo testável que um cometa possa ser expelido de Júpiter, algo que Sagan mostra ser impossível, então poderá começar a expor o resto das suas teorias.

Norman Bloom, mensageiro de Deus, é um gajo que afirma que a existência de Deus é provada por cálculos e razões matemáticas, e que vivemos dentro de um relógio super preciso e que só pode ter sido criado por Deus. Bloom vai mais longe, afirma-se como sendo a reencarnação de Jesus Cristo. Esta parte acaba com uma visão introspectiva sobre a Ficção Cientifica.

O resto do livro é uma visão futurista sobre viagens a Marte pela opinião de Robert H. Goddard e a defesa dos robots. No último vemos um exemplo de um teste de Turing, um exame a inteligência artificial, e as respostas de um robot terapeuta. Temos também uma visão sobre a possibilidade de vida extra-terrestre e exploração espacial, e o nosso lugar quando nos comparamos aos seres possivelmente superiores.

No fim temos uma espécie de explicação teórica para a existência das religiões, em que tenta arranjar uma relação entre experiências perinatais (pré-natais) e a existência das religiões, como sendo resultado dos traumas sofridos durante o nascimento. Este é um dos poucos pontos que nã concordo com Sagan, ele não afrima acreditar nisto, mas claramente sentiu-se tentado, tenho as minhas dúvidas sobre memórias anteriores ao nascimento.

Bem, se querem um bom autor para começar a ler ciência o Sagan é bom. Existem uns erros menores de tradução, suponho que sejam de tradução, não acredito que Sagan se enganasse a escrever Hubble, usando o nome Hubbell. Sagan incentiva o pensamento crítico, um ponto muito importante para o pensamento ciêntifico, onde temos um bom pensamento: para afirmações extraórdinárias são precisas provas extraórdinárias.


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