Manuel Pinho e o fundo do poço
por Miguel Guerreiro
Já andava desconfiado que qualquer dia iríamos chegar ao fundo do poço, era só uma questão de tempo. As evidências eram óbvias: telejornais sensacionalistas, apresentadores opinion makers, futebol que passou de desporto para religião, jogadores de futebol que se transformaram em meninas do Jet Set, o futebol ser considerado como assunto de interesse nacional, necessidade de se explorarem bruxos e semelhantes nos telejornais, telejornais com mais de uma hora, repetição de notícias, mais de três espaços noticiosos ao dia, figuras públicas terem perdido o direito a vida privada.
Mas hoje sei que passou os limites, passou os limites quando o já ex-ministro da economia Manuel Pinho demitiu-se por ter feito um gesto indevido na Assembleia da República. Na realidade ele não fez nada disto, limitou-se a levantar as mãos junto da cabeça com o dedo indicador levantado, e que infelizmente isto tem um factor figurativo na nossa sociedade. O meu problema é que esta “brincadeira” de Manuel Pinho é irrelevante.
Honestamente não quero saber o que ele fez, não quero saber e ninguém devia querer saber. Isto prova que chegamos ao ponto em que um gajo é demitido, neste caso demite-se por pressões o que é a mesma coisa, e ainda por cima se desculpa por achar que não ia ter uma vida política longa. Pior ainda, demite-se não por incompetência ou capacidade, mas sim por ter feito uma coisa com as mãos.
Comparo esta história de Pinho ao afamado BlowJob do Bill Clinton. Porque na realidade não interessa a ninguém e são ambos irrelevantes. No caso do Bill Clinton a única pessoa que podia ficar interessada em saber a história e se chatear com ele era a mulher, e mais ninguém, porque nós, os restantes, não temos nada a ver com a vida dele. Não é por ter ganho uma mamada que o gajo deixa de ser um possível bom presidente, não que ele o tenha sido. Temos de separar o profissionalismo que é o que interessa para o caso, e as coisas que o gajo faz na vida privada, e a única que nos interessa é a via profissional, a menos que faça algo de ilegal a nível pessoal, fechamos a boca, e o melhor para a sanidade de todos é não sabermos porque não interessa.
Manuel Pinho já estivera envolvido em outras peripécias, como é o caso daquele excesso de velocidade que ninguém se lembra. Relevante? Sim, claro que sim, infringiu uma lei. Neste caso, merecia um castigo, e parece-me que o teve, pagou uma multa. Claro, podem dizer que o gajo ganha bem e a multa foi como dar uma grojetazinha ao polícia. Talvez seja verdade, mas sempre passou alguma vergonha, não é todos os dias que um ministro é multado.
Até o Primeiro-ministro José Sócrates esteve envolvido numa brincadeira, quem se lembra do avião que deixava um rasto de fumo negro? Exagerei claro, o que importa é que não foi o único, e o chibo também “pecou”, o tratamento foi, salvo erro, igual ao do ex-ministro da economia. Mesmo estas brincadeiras, não são assim tão relevantes, preocupava-me mais se algum dos senhores fosse pedófilo.
A culpa disto tudo é de todos nós, disto e de muitas outras coisas que se passam. Primeiro a culpa é do povo que não se quer instruir ou ter o mínimo de cultura, e passo a lembrar que cultura desportiva não conta. Se em vez de gastarem dinheiro em iPods, iPhones ou outros telelés topo de gama, carrões e televisões de plasma, comprassem um telemóvel mais barato mas que conseguissem meter-lhe um saldo sempre positivo, talvez desse para se comprar pelo menos um livro ao fim de um ano. Se toda a gente lesse um livro por ano, algumas destas merdas acabavam, e os resultados viam-se logo ao fim de um par de semanas. Dou o meu exemplo na matéria, desde o início deste ano (2009) já li Os Maias e O Primo Bazílio do Eça de Queirós, O Cérebro de Broca do Carl Sagan, e neste momento estou a ler O Crime do Padre Amaro. Quantos é que já leram desde Janeiro três livros e vão no quarto? Sim eu sei que algumas raras excepções já fizeram mais do que isso, mas esses são profissionais…
Outro grande problema do povo é que este literalmente não quer saber, além do futebol, a verdadeira religião do povo que é dividida por diferentes seitas, e em Portugal existem três grandes seitas: o Benfica, o Sporting e o F.C. do Porto. Enquanto existem mais uma série de pequenas seitas que ambicionam ser como as três maiores. Se um décimo do interesse dado ao futebol fosse dado a assuntos sérios, como a política, éramos capazes de sair do poço. Mas não, para quê? É mais bonito chamar-se aos políticos de cabrões, gatunos e filhos da puta, do que perceber que eles são resultado da nossa podre sociedade, eles são portugueses como nós, sim eles saíram de famílias portuguesas, e os erros que eles cometem são também nossa culpa.
Claro que a culpa não é exclusiva do povo. Os Mass Media também desempenham um papel de relevo no que toca a enterrar o sistema e a sociedade cá bem no fundo do poço. Desde que vi que os telejornais já levavam mais de uma hora para acabarem, e que repetiam aquilo que já haviam dito antes, e começaram a meter intervalos cheios de publicidade, e os clássicos: Estados Unidos declaram ultimato a Saddam Hussein, dentro de momentos. Eu sabia que isto não podia dar grande coisa. Mas nunca pensei que chegaríamos ao ponto de metade do telejornal ser constituído por futebol, eles chama-lhe desporto, na realidade é futebol, pois em Portugal se forem ao dicionário, verão que Desporto quer literalmente dizer Futebol.
Ainda não satisfeitos ao lixarem-nos, quiseram levar a fasquia ainda mais baixo. Os jornalistas e repórteres começam a não ser capazes de arranjar notícias suficientes e de “relevo”, leia-se notícias sensacionalistas que são as únicas que importam, para telejornais com tempo de antena cada vez maior. Quase que aposto que dentro de um par de anos o tempo médio de um telejornal irá ter duas horas, e será transmitido quatro vezes ao dia, com cinco intervalos pelo meio. Deixem-me que vos diga que ninguém consegue engolir tanta informação e publicidade, por isso não o façam.
O telejornal tinha como ideia uma síntese generalista das coisas, só com os assuntos de verdadeiro relevo, sem opiniões, só informação, como devia ser o jornalismo, e resumidamente, e actualmente ainda mais. O telejornal devia ser um pequeno resumo das noticias importantes feito em meia hora, e passado duas vezes ao dia, e quem quisesse ver ou saber mais sobre os resumos que viu, que salte ao site da estação para saber mais. Cada notícia teria o máximo de um minuto para ser apresentada, e se uma estação tivesse um telejornal com mais de 30 minutos exactos pagaria uma multa.
Outra coisa, acabar com os telejornais com dois pivots, isso é uma merda à lá americano que só faz perder tempo, tem de ser um gajo ou uma gaja, e a aviar notícias. Contudo, em parte a culpa é do povo, novamente, que se limita a deixar a televisão ligada a hora do almoço e que não que saber se o que os gajos dizem é verdade ou não, gostam de ouvir as bocarrudas das televisões a dizer que o governo é feito de gatunos, e gostam disso, culpa-se o governo por tudo, mesmo pelos erros que fizemos nas nossas próprias vidas pelas nossas próprias mãos. É mais fácil culpar os outros do que a nossa própria estupidez.
Por outro lado, chegamos ao ponto em que um tipo já não pode dizer as verdades, conhecidas por todos, sem se meter em problemas. Temos o caso do Primeiro-ministro se referir a uma tal estação de televisão com jornalismo travestido, e com toda a razão diga-se, e ser processado pela estação de televisão. É o que digo, se isto não é fundo do poço, não estamos longe, com mais um bocado de esforço enterramo-nos tanto que nunca mais de lá seremos capazes de sair. E claro, da próxima demitam-se ou despeçam com razões mais sérias do que repreensões parvas.







Dizes:
Nunca vi um jornal (tele ou não) que não exprima opinião. Não sei o que é que queres dizer com «só informação» a mim parece-me vida sem sexo. Quando se escolhe uma notícia e se omite outra está a dar-se uma opinião.
Que o telejornal deva ser mais pequeno do que é a média dos telejornais de canal aberto concordo contigo.
Acho estranho que digas «como devia ser o jornalismo». Noutra vida (2 décadas atrás) dei assistência técnica a diversos jornais e coisa que aprendi foi a diversidade de modos de funcionar, apresentar notícias e apresentar opinião e até ideias.
Querer formatar notícias de acordo com um tempo máximo é demasiado reducionista.
Não conheço os contratos de concessão para saber se a tua última frase, no parágrafo citado «”… com mais do que 30 minutos exactos pagaria multa» poderia ser levada a letra de lei, nos contratos encontram-se a generalidade das obrigações a que as concessionárias se obrigam e não me parece que lá esteja uma regra dessas.
Voltando às opiniões vs. ideias. Aborrece-me que se expenda tanto tempo com opinião mal fundamentada. Prefiro ideias, de preferência bem expostas, mesmo quando não concordo (integralmente ou não) com as mesmas.
Quanto a noticiários tenho que admitir que prefiro ver os do 2 canal da RTP (mais curtos e concisos). Já agora quando as notícias me enchem simplesmente escolho outro canal ou então ponho um DVD ou ainda melhor saio um pouco de casa.
@Carlos Afonso
Ok, admito que exagerei um bocado com a multa, bem, a ideia era mesmo que aquilo ficasse com 28 ou 29 minutos, o que chega perfeitamente.
Nada disso, primeiro quando digo só informação eu sei que isso não é possível, mas tentar a sério já era um grande avanço em comparação aquilo que temos hoje. Por exemplo:
Entre ás 18 horas e as 19 horas da tarde de ontem correu um atentado terrorista islâmico em Atlanta, e infelizmente morreram 50 pessoas entre as quais 14 crianças.
Ficaria:
Ontem ao final do dia um atentado terrorista em Atlanta, assassinou 50 pessoas.
Se repareres a informação continua a mesma, e não dou juizos de opinião.
Talvez, mas reparemos que hoje as coisas estão um pouco fora de mão, o que já sei que acontece se não se impor uma espécie de limite, os gajos ao fim de uma décadas, voltam a situação actual, só isso.
Nota que eu sou a favor que se dê opinião, desde que, concordando contigo, seja bem fundamentada. Só acho que esta fase da opinião não devia fazer parte do Telejornal, mas sim, como uma espécie de suplemento de 15 minutos que seguiam ao Telejornal com opinião de um especialista sobre diversos assuntos.
Assim é que se faz, e claro os da RTP 2 são os mais bem conseguidos, por uma boa razão: eles não querem saber de audiências
Para alguém instruído e que tem um mínimo de cultura, não está nada mau.
Eu sou licenciado e tenho uma mãe que é analfabeta, pertence ao povo e que obviamente nunca leu Eça de Queirós. É, no entanto, uma pessoa admirável e sábia.
Tu, basicamente, és um snob.
Concordo com muitas das ideias aqui expressas, excepto alguns exageros já aqui referidos e mais um ou outro. Mas a ideia está lá.
Quanto ao comentário anterior, penso que o autor quando falou nesse assunto não foi com essa intenção.
@Luís Bento
Bem hoje, foi o topo da minha vida, cheguei a snobe.
Com tal afirmação não te posso deixar sair daqui ileso, e já agora, o meu dicionário, senhor licenciado afirma que a palavra é snobe
Já agora não sei, mas custar-te-ia assim tanto dar coisa de uma hora ou meia hora a senhora tua mãe, para lhe ensianares a ler? Não sou licenciado, e garanto-te que se algum dos meus pais não soubesse ler, eu trataria de os ensinar. Porque como snobe que sou, não sou capaz de tolerar pessoas pouco cultas na minha família.
Já agora, meu caro Luís, eu pertenço ao povo, a ti não sei, mas tenho sangue vermelho do povo. Quando falo do povo incluo-me a mim, pode não ser evidente no texto, mas faço parte integrante do “mexilhão”.
Deves ser um indivíduo muito inteligente para conseguir ver por um post, que eu sou um snobe. Mas o curioso é que não sou eu o senhor licenciado inchado que aparece por aí a chamar aos outros de snobes sem apresentar uma evidência disto. Bem, por mim estás a vontade de dizer o que quiseres, se achas que sou snobe estás a vontade e não me importo nada. Agora quanto a ti pelo que posso medir, és preconceituoso e um hipocritazinha medíocre, mas deixa-lá eu sou snobe, não é verdade?
Vou daqui ileso… Sabendo que sou muito inteligente ao ponto de perceber num poste que és snob e que tu és um iluminado ao ponto de perceber num comentário que eu sou preconceituoso e um hipocritazinha medíocre. Contradições….
Nota1: No meu dicionário a palavra snob está lá, refere que é inglesa obviamente, mas está lá e por isso pode ser usada. Podes confirmar na Porto Editora e na Priberam.
Nota2: Perdi ontem uma hora e meia com a minha mãe de 70 anos e ela hoje começou a ler Saramago. Obrigado pela dica, afinal era bem fácil. Ela está mais culta e estamos todos mais felizes. Obrigado mais uma vez.
Nota 3: É óbvio que a minha mãe não é 100% analfabeta, não tem escolaridade mas aprendeu comigo e com os meus irmãos o básico da escrita e da leitura. Não faz dela uma pessoa alfabetizada e “culta” mas ajude-a a orientar-se numa repartição pública.
Fica bem
@Luís Bento
A primeira parte só fiz o mesmo que tu: estampar aquilo que um gajo pensa ao fim de uma pequena leitura, como é suposto sabermos, isso é uma espécie de preconceito, e está errado.
Até podia mas não me aptece…
Não era isso que eu quis dizer, mas vou fazer de conta que não estás a brincar, parabéns. Estava era a dizer perder uma meia horita ou uma hora por dia ao longo de uns tempos, não me venhas dizer que não consegues ensinar alguém a ler numa sessão, sei disso porque sou iluminado
Então a tua mãe é ileterada, o que é diferente, então sempre fizeram algo útil, se é verdade portaram-se bem, sempre foi mais que muitos, mas podiam ter ido mais longe, enfim. Mesmo um gajo culto e alfabetizado fica na merda dentro de uma repartição pública, aquilo é preciso no mínimo um mapa e uma bússula aos mais experientes, aos outros de GPS e mal…